Patologia benigna ano-rectal
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 19 perguntas neste tema
A patologia benigna anorretal junta doenças muito frequentes que se reconhecem quase sempre pela história e pela inspeção: a doença hemorroidária, a fissura anal, o abcesso e a fístula, a doença pilonidal, o prolapso retal, a incontinência fecal e o prurido anal. Quase toda a semiologia se explica pela linha pectínea: acima dela a mucosa é insensível à dor somática, abaixo o anoderme é muito inervado.
A hemorroida interna sangra sem doer, com sangue vermelho vivo no fim da dejeção, e pode prolapsar; a trombose hemorroidária externa é um nódulo azulado e muito doloroso de início súbito. A fissura dá uma dor que rasga durante e depois da defecação, com pouco sangue no papel, e fica quase sempre na linha média posterior. O abcesso dá dor contínua e pulsátil com tumefação e febre, e a fístula é a sua sequela crónica, com drenagem intermitente por um orifício na pele. A doença pilonidal vive no sulco interglúteo, o prolapso retal é da mulher idosa e a incontinência fecal nasce sobretudo da lesão obstétrica do esfíncter.
O tratamento começa quase sempre pela fibra, pela água e pela correção dos hábitos defecatórios. Depois escalona-se: laqueação elástica e hemorroidectomia nas hemorroidas, relaxantes tópicos do esfíncter, toxina botulínica e esfincterotomia na fissura, drenagem no abcesso, e na fístula técnicas que tratam o trajeto sem sacrificar a continência.
O que não se pode falhar é o abcesso que fica por drenar, que no diabético e no imunodeprimido evolui para infeção necrosante do períneo, e a retorragia atribuída a hemorroidas num doente com sinais de alarme, que pode ser um cancro colorretal.
A linha pectínea
A linha pectínea, ou dentada, é a fronteira entre a mucosa colunar do reto e o anoderme pavimentoso do canal anal distal. Nela desembocam as criptas anais, na base das colunas de Morgagni, e é das glândulas que drenam para essas criptas que nascem os abcessos criptoglandulares.
| Acima da linha pectínea | Abaixo da linha pectínea | |
|---|---|---|
| Epitélio | mucosa colunar | anoderme pavimentoso |
| Sensibilidade | insensível à dor somática | inervação somática, muito sensível |
| Drenagem linfática | gânglios mesentéricos inferiores e ilíacos internos | sobretudo gânglios inguinais |
| O que lá nasce | hemorroida interna, indolor | hemorroida externa e fissura, dolorosas |
O esfíncter anal interno é músculo liso, de controlo involuntário, e é o responsável pela pressão de repouso; o externo e o puborretal são músculo estriado, inervados pelo nervo pudendo.
A queixa aponta o diagnóstico
| Queixa dominante | Diagnóstico provável |
|---|---|
| Sangue vermelho vivo, indolor, no fim da dejeção, com ou sem prolapso | hemorroida interna |
| Dor que rasga durante e após a defecação, sangue no papel | fissura anal |
| Nódulo perianal azulado, muito doloroso, de início súbito | trombose hemorroidária externa |
| Dor perianal contínua e pulsátil, febre, tumefação | abcesso anorretal |
| Drenagem intermitente de pus por um orifício perianal | fístula anal |
| Massa que sai com o esforço, com pregas circulares, e perdas | prolapso retal |
| Dor e drenagem no sulco interglúteo, com orifícios na linha média | doença pilonidal |
Exame proctológico
- Inspeção com afastamento das nádegas, em repouso e com esforço: mariscas, nódulo trombosado, fissura, orifício fistuloso, prolapso.
- Toque retal, para excluir outra patologia e avaliar o tónus do esfíncter. Na fissura, com dor intensa, adia-se.
- Anoscopia, que mostra e gradua as hemorroidas internas.
- Exame sob anestesia quando a dor não deixa examinar ou o diagnóstico fica em dúvida (abcesso interesfinctérico, fístula complexa).
Sinais de alarme perante uma retorragia
A doença hemorroidária é a causa mais frequente de sangue vermelho pelo reto, e a atribuição de uma retorragia a hemorroidas é também a oportunidade mais vezes perdida de diagnosticar um cancro colorretal. Ter hemorroidas visíveis não exclui uma neoplasia a montante.
Faz-se colonoscopia quando:
- não se encontra na observação anorretal uma fonte que explique o sangue;
- há sintomas abdominais associados: dor, distensão, obstipação de novo ou progressiva, alteração do trânsito;
- há anemia;
- a história familiar ou pessoal põe o doente em risco;
- o doente está em idade de rastreio e não o fez;
- a hemorragia persiste depois de um tratamento das hemorroidas que de resto correu bem.
No doente jovem, sem história familiar nem outros sinais, pode tratar-se primeiro a doença hemorroidária e fazer colonoscopia se a hemorragia continuar. Uma massa dura, irregular ou ulcerada ao toque não é hemorroida e obriga a biópsia.
O rastreio populacional do cancro do cólon e reto, dos 50 aos 74 anos com pesquisa imunoquímica de sangue oculto nas fezes de 2 em 2 anos, é para quem não tem queixas. O doente com retorragia não espera pelo rastreio: segue a via diagnóstica.
- Os coxins hemorroidários são almofadas de tecido submucoso com vénulas, arteríolas e fibras musculares lisas, normais no canal anal. Ajudam ao encerramento completo do canal em repouso e fazem parte do mecanismo da continência.
- Há três coxins principais: lateral esquerdo, anterior direito e posterior direito.
- Fala-se de doença hemorroidária só quando dão sintomas, e só então se tratam.
- A hemorroida interna fica acima da linha pectínea, coberta de mucosa; a externa abaixo, coberta de anoderme; a mista atravessa a linha e tem as características das duas.
Classificação de Goligher (hemorroidas internas)
| Grau | Definição |
|---|---|
| I | faz saliência no canal anal, sem sair pelo ânus |
| II | prolapsa com o esforço e reduz espontaneamente |
| III | prolapsa e precisa de redução manual |
| IV | prolapso irredutível, com risco de estrangulamento |
- É uma das doenças mais frequentes na prática médica e cirúrgica; a idade é fator de risco, e a dieta ocidental pobre em fibra também.
- O esforço defecatório, o aumento da pressão abdominal e as fezes duras aumentam o ingurgitamento do plexo hemorroidário e fazem prolapsar o tecido.
- Com o tempo, o tecido de suporte que ancora os coxins enfraquece e estes deslizam para fora do canal, onde ficam expostos a traumatismo.
- A obstipação é o fator de risco mais consistente: é duas vezes mais frequente em quem tem hemorroidas. Também contam o tempo prolongado na sanita, a gravidez e a idade.
- O sangue é vermelho vivo porque os coxins nascem de um conjunto de ligações arteriovenosas.
- A trombose de uma hemorroida externa, território de inervação somática, dá dor intensa. A hemorroida interna só dói quando trombosa ou necrosa, habitualmente no prolapso encarcerado.
- A hipertensão portal não aumenta a frequência de doença hemorroidária. O que dá são varizes retais, que se tratam baixando a pressão portal.
- Hemorroida interna: sangue vermelho vivo, indolor, na sanita ou no papel, com a dejeção; prolapso intermitente. Pode haver dor surda por ingurgitamento. Hemorragia repetida pode dar anemia.
- Hemorroida externa e mariscas: dificuldade de higiene, prurido.
- Trombose hemorroidária externa: nódulo perianal azulado, doloroso e irredutível, com dor máxima nas primeiras 24 a 72 horas; depois o coágulo começa a reabsorver e a dor resolve sozinha. Deixa muitas vezes uma marisca, prega de pele fibrosa que se confunde com hemorroida.
- Prolapso de grau IV encarcerado: dor intensa, edema, trombose e necrose da mucosa.
- O diagnóstico é clínico: história, inspeção em repouso e com esforço, toque retal e anoscopia, que localiza e gradua as internas. Se o prolapso não aparece na marquesa, pede-se ao doente que faça esforço sentado na sanita.
- Os critérios para colonoscopia são os da retorragia com sinais de alarme, em cima.
Diagnóstico diferencial
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Prolapso retal | pregas circulares e concêntricas, parede inteira; o prolapso hemorroidário tem sulcos radiais |
| Fissura anal | dor que rasga na defecação, visível ao afastar as nádegas |
| Pólipo ou cancro colorretal | sinais de alarme, massa ao toque, sangue misturado nas fezes |
| Papila anal hipertrófica, marisca | lesões fibrosas, sem ingurgitamento |
| Varizes retais | hipertensão portal conhecida |
- A medida com mais evidência é aumentar a fibra, por dieta ou suplemento do tipo psílio (ispágula), com água suficiente: reduz para cerca de metade o risco de sintomas persistentes e reduz a hemorragia.
- Hábitos defecatórios: não fazer esforço, não ficar tempo prolongado na sanita, não adiar a dejeção.
- Tratar a obstipação e a diarreia, que são as duas pontas do mesmo traumatismo.
- A mesma regra vale para a fissura: manter a fibra depois de sarar é o que evita a recidiva.
Médico
- Fibra, água e hábitos defecatórios são a primeira linha em todos os graus e resolvem a maioria dos graus I e II.
- Flebotónicos (flavonoides como a diosmina): reduzem a hemorragia, o prurido e as perdas, sem efeito na dor.
- Tópicos com anestésico, corticoide ou emoliente aliviam os sintomas, mas não há evidência de benefício prolongado e o uso longo sensibiliza a pele.
Procedimentos de consultório
Para os graus I e II que não respondem ao tratamento médico e para graus III selecionados.
| Técnica | Como atua | O que saber |
|---|---|---|
| Laqueação elástica | elástico na mucosa 1 a 2 cm acima da linha pectínea; o coxim necrosa e a mucosa fixa-se | a mais eficaz de consultório; um ou dois coxins por sessão; o elástico na linha pectínea ou abaixo dela dá dor intensa |
| Escleroterapia | injeção submucosa de esclerosante (por exemplo fenol em óleo) | opção no doente anticoagulado |
| Fotocoagulação por infravermelhos | coagulação do vértice do coxim | graus I e II pequenos; menos dor, mais hemorragia |
- Complicações da laqueação: dor, retenção urinária (cerca de 1%), hemorragia grave em cerca de 1%, quando o elástico cai, 10 a 14 dias depois.
- A sépsis perineal é rara mas grave: febre, dor intensa e dificuldade em urinar depois de uma laqueação obrigam a exame sob anestesia urgente, desbridamento e antibiótico de largo espetro.
- Antiagregantes e anticoagulantes aumentam o risco de hemorragia; pondera-se suspendê-los, pesando o risco trombótico, ou escolhe-se a escleroterapia.
Cirurgia
- Hemorroidectomia excisional, aberta (Milligan-Morgan) ou fechada (Ferguson): para a doença externa ou mista sintomática e os graus III e IV, e para quem falha ou não tolera os procedimentos de consultório. É a técnica com menos recidiva.
- Laqueação das artérias hemorroidárias guiada por Doppler: dói menos que a excisão, mas recidiva mais.
- Hemorroidopexia com agrafador: não se recomenda como primeira escolha, porque recidiva mais que a excisão e tem complicações próprias graves (fístula retovaginal, estenose, perfuração retal).
Trombose hemorroidária externa
- Nas primeiras 72 horas, com dor intensa: excisão elíptica do trombo sob anestesia local, no consultório. Alivia mais depressa e recidiva menos que o tratamento conservador. A simples incisão com evacuação resulta mal, porque o coágulo é loculado.
- Depois das 72 horas o coágulo reabsorve e a dor está a ceder: banhos de assento, analgésicos, fibra.
Da doença
- Prolapso de grau IV encarcerado, com trombose e necrose.
- Anemia ferropénica por hemorragia crónica, depois de excluída outra causa.
Da hemorroidectomia
| Complicação | O que saber |
|---|---|
| Dor | a mais frequente; analgesia multimodal, banhos de assento, laxantes |
| Retenção urinária | 1 a 15%; diminui com menos de 750 mL de soros e boa analgesia |
| Hemorragia | 1 a 2%; precoce por laqueação insuficiente do pedículo (volta ao bloco) ou tardia, 7 a 10 dias depois, quando cai a escara |
| Impactação fecal | pela dor; previne-se com laxantes |
| Infeção necrosante | rara e devastadora; dor, febre e retenção urinária pedem exame sob anestesia |
| Estenose anal | por excisão extensa de pele |
| Incontinência | transitória para gases é comum; permanente é rara |
- Grávida e puérpera: as hemorroidas e a trombose externa são frequentes no fim da gravidez e no pós-parto. Trata-se com fibra, água e tópicos; a espuma de hidrocortisona com anestésico local foi eficaz e segura no fim da gravidez. As hemorroidas do pós-parto resultam do esforço do trabalho de parto, com edema, trombose ou estrangulamento; a hemorroidectomia fica para a doença que não cede, sobretudo em quem já tinha sintomas crónicos.
- Cirrose com hipertensão portal: a hemorragia vem muitas vezes de varizes retais, que se tratam baixando a pressão portal. A hemorroidectomia evita-se, pelo risco de hemorragia varicosa maciça.
- Imunodeprimido e proctite ativa: não se fazem procedimentos sobre as hemorroidas.
- Doença de Crohn: as hemorroidas não são mais frequentes, e as mariscas e hemorroidas só se excisam se derem muitos sintomas, pelo risco de feridas que não saram.
- Rasgadura longitudinal do anoderme, distal à linha pectínea, que se estende em direção à margem anal.
- Aguda quando os sintomas têm menos de 6 semanas; crónica quando duram mais e mostram estigmas de cronicidade.
- Localização: linha média posterior em 73%; anterior em 13% das mulheres e 8% dos homens. Fissura lateral ou múltipla é atípica.
- Mais frequente entre a terceira e a quinta décadas, igual nos dois sexos. No lactente é a causa mais frequente de retorragia.
- O traumatismo inicial vem de fezes duras ou de diarreia prolongada.
- A rasgadura provoca hipertonia do esfíncter anal interno, que aumenta a pressão de repouso e reduz o fluxo sanguíneo para o anoderme.
- O sangue chega ao anoderme lateralmente; com o esfíncter contraído, a comissura posterior fica isquémica e a ferida não sara.
- Fecha-se um ciclo de dor, espasmo e isquemia, e é esse ciclo que faz a fissura crónica. Tratar é baixar o tónus do esfíncter, por via química ou cirúrgica.
- Causas secundárias (fissura lateral, múltipla, indolor ou de aspeto atípico): doença de Crohn, infeção pelo vírus da imunodeficiência humana, sífilis, tuberculose, neoplasias hematológicas e carcinoma.
- Dor aguda que rasga durante a defecação, descrita como «passar vidro», que pode durar horas depois.
- Sangue vermelho vivo no papel, em menor quantidade do que na doença hemorroidária.
- Ao afastar suavemente as nádegas vê-se a fissura. Muitas vezes a dor não deixa fazer toque retal nem anoscopia.
- Estigmas de cronicidade: marisca sentinela distal, papila anal hipertrófica proximal e fibras brancas do esfíncter interno na base.
- A dor leva a reter as fezes, o que as endurece e alimenta o ciclo.
- Diagnóstico clínico, pela história e pela inspeção.
- A fissura atípica (lateral, múltipla, larga e profunda, pouco dolorosa, ou que não sara) pede investigação: exame sob anestesia com biópsia, serologias de sífilis e de VIH, e estudo de doença de Crohn.
- Se a dor sugere outra causa, como um abcesso interesfinctérico, faz-se exame sob anestesia.
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Abcesso interesfinctérico | dor profunda e contínua, sem fissura visível, pior com a tosse |
| Trombose hemorroidária | nódulo azulado perianal |
| Proctite herpética | dor intensa e tenesmo, vesículas |
| Carcinoma do canal anal | lesão endurecida, que não sara |
| Fissura de Crohn | lateral, múltipla, úlcera larga, pouca dor |
Fissura aguda
- Tratamento conservador: banhos de assento e fibra, com ou sem anestésico tópico. Cura cerca de metade das fissuras agudas, e cura mais quanto mais cedo começa.
- Manter a fibra depois de sarar reduz a recidiva (16% contra 60% sem fibra).
Fissura crónica: tratamento farmacológico
| Opção | O que saber |
|---|---|
| Bloqueadores dos canais de cálcio tópicos (diltiazem a 2%, nifedipina a 0,2%) | eficácia igual à dos nitratos com menos efeitos adversos; primeira linha. Via tópica em vez de oral, por menos efeitos sistémicos |
| Nitroglicerina tópica | cura cerca de metade; cefaleia em pelo menos 30%, que faz desistir até 1 em 5 |
| Toxina botulínica no esfíncter interno | resultados semelhantes aos tópicos em primeira linha; ganho modesto em segunda linha depois de falharem; incontinência transitória em cerca de 5% |
Fissura crónica: cirurgia
- Esfincterotomia lateral interna: o tratamento de eleição da fissura crónica no doente sem incontinência prévia. Cura 88 a 100%, com incontinência (sobretudo a gases) em 8 a 30%.
- A secção limitada ao comprimento da fissura, até ao seu ápex, cura o mesmo e causa menos incontinência do que a secção até à linha pectínea. A técnica aberta e a fechada dão o mesmo resultado.
- Pode oferecer-se de início, sem passar pelos fármacos, a doentes selecionados, porque a adesão ao tratamento tópico prolongado é fraca.
- Evita-se na mulher com lesão obstétrica prévia, na doença inflamatória intestinal, depois de cirurgia anorretal e com lesão conhecida do esfíncter. Nestes, e em quem já tem incontinência, a alternativa é o retalho de avanço anocutâneo.
- A dilatação anal forçada não se usa: causa mais incontinência que a esfincterotomia.
- Sem tratamento, a fissura aguda pode cronificar; quanto mais tempo tem, menos responde ao tratamento conservador, e com mais de um ano de sintomas responde mal aos fármacos.
- A recidiva é mais frequente com os fármacos do que com a esfincterotomia; em troca, a esfincterotomia arrisca a incontinência, mais vezes na mulher.
- A fissura que recidiva depois de esfincterotomia ou de toxina pode voltar a tratar-se pelo mesmo método, com dados ainda escassos.
- Doença de Crohn: a fissura é lateral, múltipla, larga e profunda, mais úlcera do que fissura, e dói pouco. Se dói muito, procura-se um abcesso por baixo. Trata-se com terapêutica local e sistémica; a esfincterotomia está relativamente contraindicada, pelo risco de ferida que não sara e de incontinência num doente com diarreia.
- Lactente: a fissura é a causa mais frequente de retorragia; trata-se a obstipação.
- Pós-parto: a fissura anterior é mais frequente na mulher, e a lesão obstétrica do esfíncter pode estar oculta; prefere-se o tratamento farmacológico ao corte do esfíncter.
- Abcesso anorretal: cavidade com pus na região anorretal. Três vezes mais frequente no homem, com pico entre a terceira e a quinta décadas.
- Fístula anal: trajeto epitelizado entre o canal anal (orifício interno, habitualmente numa cripta da linha pectínea) e a pele perianal (orifício externo).
- São a fase aguda e a crónica da mesma doença: 30 a 70% dos doentes com abcesso já têm fístula e, dos que não têm, 30 a 50% vêm a tê-la nos meses ou anos seguintes à drenagem.
- Mais frequentes na diabetes, na imunossupressão, na doença inflamatória intestinal e na infeção pelo VIH, que se procuram quando os abcessos se repetem.
Localização do abcesso
| Tipo | Frequência | Onde fica |
|---|---|---|
| Perianal | 40 a 50% | margem anal, tumefação visível |
| Isquiorretal | 20 a 25% | fossa isquioanal, lateral; pode ser grande e pouco visível; bilateral dá o abcesso em ferradura |
| Interesfinctérico | 2 a 5% | entre os esfíncteres; quase sem sinais externos |
| Supraelevador | cerca de 2,5% | acima do elevador do ânus |
- A maioria é criptoglandular: as glândulas anais ficam no plano interesfinctérico e os seus ductos atravessam o esfíncter interno para desembocar nas criptas da linha pectínea.
- A infeção de uma glândula forma um abcesso que cresce ao longo de um dos planos perianais e perirretais, e é essa anatomia que decide onde ele aparece.
- Quando o trajeto entre a cripta e a pele epiteliza, fica a fístula. Na classificação de Parks, o trajeto descreve-se em relação ao aparelho esfinctérico, e é isso que decide o risco de incontinência ao operar.
Classificação de Parks
| Tipo | Frequência | Trajeto |
|---|---|---|
| Interesfinctérica | 70% | pelo esfíncter interno e o espaço interesfinctérico até à margem anal |
| Transesfinctérica | 23% | atravessa os dois esfíncteres até à fossa isquioanal |
| Supraesfinctérica | 5% | sobe no plano interesfinctérico e contorna todo o esfíncter externo |
| Extraesfinctérica | 2% | da parede retal, por fora dos dois esfíncteres, até à pele |
- Outras causas de fístula: doença de Crohn, traumatismo, neoplasia, radioterapia e infeções invulgares (tuberculose, actinomicose, clamídia). Fístula complexa, recorrente ou que não sara faz suspeitar delas.
Abcesso
- Dor anal intensa e contínua, com tumefação e muitas vezes febre; pode haver retenção urinária e, no limite, sépsis.
- Perianal: tumefação dolorosa e flutuante na margem anal.
- Isquiorretal: tumefação difusa da nádega; ao toque, massa dolorosa lateral.
- Interesfinctérico: dor profunda, «lá dentro», que agrava com a tosse e o espirro, sem quase nada à inspeção; a dor não deixa fazer toque.
- Supraelevador: pode imitar um quadro intra-abdominal; ao toque, massa acima do anel anorretal.
Fístula
- Drenagem persistente ou intermitente de pus pela pele perianal, com prurido e dificuldade de higiene, e um trajeto endurecido palpável.
- O orifício externo é um mamilo de tecido de granulação, muitas vezes no sítio da drenagem prévia.
Abcesso
- Clínico na maioria: inspeção e toque retal.
- Imagem (tomografia computorizada ou ressonância) só nos casos atípicos ou complexos, e no abcesso oculto. Na dúvida, o exame sob anestesia confirma e trata ao mesmo tempo.
Fístula
- Regra de Goodsall: com uma linha transversa pelo ânus, o orifício externo anterior liga-se por trajeto curto e radial à cripta mais próxima; o posterior curva para a linha média posterior. Um orifício anterior a mais de 3 cm da margem anal costuma também ir à linha média posterior. É uma orientação e não uma certeza: falha com alguma frequência, sobretudo nas fístulas complexas e na doença de Crohn.
- A fístula simples é interesfinctérica ou transesfinctérica baixa, com menos de 30% do esfíncter. Complexa é a transesfinctérica com mais de 30% do esfíncter externo, a supra e a extraesfinctérica, a fístula em ferradura, a da doença de Crohn, da radioterapia ou da neoplasia, a de quem já tem incontinência ou diarreia crónica, a recidivada e, na mulher, a anterior.
- A imagem não é precisa por rotina. Pede-se na fístula complexa ou recorrente, no abcesso oculto, no imunodeprimido e na doença de Crohn. A ressonância magnética pélvica é o exame de eleição (sensibilidade de 95% para o trajeto principal) e vê melhor as extensões secundárias do que a ecografia endoanal, que é alternativa.
- O orifício interno procura-se com cuidado, com peróxido de hidrogénio ou azul de metileno: forçar um estilete cria um falso trajeto e transforma uma fístula simples numa complexa.
- Na fístula complexa ou que não sara faz-se retoscopia e biópsia do trajeto.
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Hidradenite supurativa | trajetos cutâneos que param na margem anal, porque o canal não tem glândulas apócrinas |
| Doença pilonidal | orifícios na linha média do sulco interglúteo |
| Doença de Crohn perianal | fístulas múltiplas e complexas, mariscas edematosas, úlceras |
| Furúnculo | folículo piloso, sem ligação ao canal |
Abcesso
- Incisão e drenagem logo que se faz o diagnóstico, sem esperar pela flutuação. O atraso pode dar supuração extensa, necrose e sépsis.
- O abcesso perianal simples drena-se com anestesia local, com incisão perto da margem anal; os maiores, os complexos e os de diabéticos e imunodeprimidos drenam-se no bloco.
- O isquiorretal drena-se pela pele da fossa; o abcesso em ferradura obriga a drenar o espaço pós-anal profundo; o interesfinctérico drena-se para o canal por esfincterotomia interna limitada.
- No supraelevador, a via de drenagem depende da origem: se vem de um interesfinctérico drena-se pelo reto, se vem de um isquiorretal pela fossa isquiorretal. Pela via errada cria-se uma fístula supra ou extraesfinctérica.
- O antibiótico não substitui a drenagem e reserva-se para celulite associada, sinais sistémicos de infeção ou imunossupressão; os manuais juntam-lhe a diabetes e a prótese valvular.
- Se durante a drenagem se encontra uma fístula simples, pode fazer-se logo a fistulotomia em doentes selecionados.
Fístula
O objetivo é curar o trajeto sem sacrificar a continência.
| Situação | Opção |
|---|---|
| Fístula simples com esfíncter normal | fistulotomia (abrir o trajeto), recidiva de 0 a 18% |
| Transesfinctérica e complexa | retalho de avanço endorretal ou laqueação do trajeto interesfinctérico, recidiva de 20 a 30% |
| Sépsis ativa ou anatomia por esclarecer | seton de drenagem (fio laxo), que mantém o trajeto a drenar; permite cirurgia faseada |
| Fístula complexa selecionada | seton cortante (apertado progressivamente), com uso seletivo |
- O rolhão de fístula e a cola de fibrina têm eficácia fraca e não se recomendam como tratamento.
- As técnicas endoscópicas e de laser curam bem a curto prazo, mas o resultado a longo prazo ainda não se conhece.
- Infeção necrosante do períneo (gangrena de Fournier): rara e letal. Nasce sobretudo de um abcesso criptoglandular não drenado ou mal drenado, ou de uma infeção urogenital, e mais no diabético e no imunodeprimido. A pele pode mostrar pouco (necrose, bolhas, crepitação), e o doente está tóxico. Trata-se com desbridamento cirúrgico de todo o tecido inviável, repetido as vezes que for preciso, e antibiótico de largo espetro; pode ser precisa colostomia. A mortalidade anda pelos 50%.
- Fístula depois do abcesso (em 30 a 50% dos que não a tinham).
- Depois da cirurgia da fístula: recidiva e incontinência puxam em sentidos opostos. A fistulotomia cura mais e arrisca a continência; as técnicas que poupam o esfíncter preservam a continência e recidivam mais.
- Fístula retovaginal: comunicação entre o reto ou canal anal e a vagina, causada sobretudo por lesão obstétrica, mas também por Crohn, radioterapia, neoplasia ou abcesso. Dá saída de gases ou fezes pela vagina. Até metade das obstétricas fecham sozinhas, e por isso espera-se 3 a 6 meses antes de operar; a técnica de eleição é o retalho de avanço endorretal, com esfincteroplastia se houver lesão do esfíncter.
Doença de Crohn
- As lesões anais e perianais surgem em cerca de 35% dos doentes com Crohn; a doença isolada do ânus é rara (3 a 4%) e obriga a estudar o resto do tubo digestivo.
- Abcessos recorrentes e fístulas complexas fazem suspeitar de Crohn.
- A fístula de Crohn trata-se com abordagem médica e cirúrgica combinada: drenagem da sépsis, seton de drenagem mantido por vezes durante anos, e terapêutica médica, sobretudo biológicos anti-TNF (infliximab, adalimumab), com metronidazol ou ciprofloxacina.
- A fístula assintomática não precisa de cirurgia. A fístula baixa, simples e sintomática pode ser aberta em doentes selecionados, e sem proctite ativa pode usar-se retalho de avanço ou laqueação do trajeto interesfinctérico.
- Em 10 a 15% a sépsis perianal intratável acaba em derivação fecal ou proctectomia.
Imunodeprimido e neutropénico
- A infeção grave pode existir sem os sinais cardinais de inflamação, por falta de neutrófilos.
- O exame sob anestesia não se adia pela neutropenia: se a dor ou a febre aumentam, qualquer zona endurecida incide-se, drena-se, biopsa-se (para excluir infiltrado leucémico) e cultiva-se.
- Sinus ou abcesso com pelos no sulco interglúteo, na região sacrococcígea.
- Vai do quisto ou sinus crónico com drenagem persistente e trajetos subcutâneos até ao abcesso agudo.
- Fatores associados: obesidade, sedentarismo, traumatismo ou irritação repetida da pele do sulco, história familiar e pilosidade abundante.
- É uma doença adquirida: pelos soltos presos no sulco traumatizam e penetram a pele e provocam uma reação de corpo estranho.
- Formam-se orifícios na linha média e, por vezes, infeção secundária e trajetos subcutâneos, a maioria dirigidos para cima.
- É o papel do pelo que justifica a depilação como tratamento e como prevenção.
- Agudo: dor e tumefação flutuante no sulco, com celulite.
- Crónico: drenagem persistente por orifícios na linha média do sulco interglúteo, quase sempre presentes.
- Depois de um episódio agudo, a recidiva é frequente.
- Diagnóstico clínico; exames laboratoriais e de imagem não são precisos por rotina.
- Diferencial: hidradenite supurativa, furúnculo, doença de Crohn, fístula perianal e infeções como tuberculose, sífilis e actinomicose. Lesão de aspeto suspeito biopsa-se.
- Remoção do pelo do sulco e da pele à volta, por rapagem ou depilação a laser, como tratamento primário, como adjuvante da cirurgia e como prevenção das recidivas. Como adjuvante da cirurgia, a depilação a laser associou-se a recidiva de 13%.
- Antes de operar uma recidiva, otimiza-se o que aumenta as complicações da ferida: tabaco, obesidade, glicemia, nutrição.
- Abcesso: incisão e drenagem, seja primeiro episódio ou recidiva. Por ser superficial, faz-se com anestesia local; prefere-se incisão lateral ao sulco, porque as feridas da linha média saram mal.
- Doença crónica sem abcesso: fenol aplicado nos trajetos cura depressa e de forma duradoura; a cola de fibrina é outra opção.
- Cirurgia da doença crónica: excisão com encerramento primário, cicatrização por segunda intenção ou marsupialização. Quando se fecha, fecha-se fora da linha média: cicatriza mais depressa e recidiva menos. As técnicas de avanço com encerramento lateral (Karydakis, Bascom) são as que menos recidivam.
- Retalhos, como o retalho romboide de Limberg, na doença complexa ou recorrente em que outras técnicas falharam.
- Técnicas endoscópicas minimamente invasivas: possíveis, mas pedem equipamento e experiência.
- O antibiótico profilático tem benefício incerto e decide-se caso a caso.
- A recidiva é o grande problema, e é mais alta com o encerramento na linha média.
- Deiscência e infeção da ferida, mais em fumadores e obesos.
- As feridas abertas podem levar semanas a meses a fechar e exigem pensos e remoção do pelo até cicatrizarem.
- Prolapso retal completo (procidência): protrusão circunferencial de toda a espessura da parede do reto através do ânus.
- Prolapso interno (intussusceção retal): a parede invagina sem sair pelo ânus.
- Prolapso mucoso: só a mucosa sai, associado à doença hemorroidária, e trata-se como ela.
- Seis vezes mais frequente na mulher, com pico na sétima década; no homem não depende da idade.
- Na mulher associa-se a outras alterações do pavimento pélvico: incontinência urinária, retocelo, cistocelo, enterocelo.
- Associa-se a sigmoide redundante, laxidez pélvica e fundo de saco de Douglas profundo.
- O esforço defecatório repetido estira os nervos pudendos e enfraquece o pavimento pélvico e o esfíncter externo; a lesão pudenda bilateral associa-se mais ao prolapso e à incontinência.
- O prolapso interno raramente progride para completo.
- Associações: obstipação crónica, obstrução da saída (anismo), síndrome da úlcera retal solitária, doenças do tecido conjuntivo e doença neurológica ou cognitiva.
- Massa que sai pelo ânus depois da defecação e que reduz sozinha ou tem de ser reduzida à mão.
- Muco, sangue e perdas, com má higiene perianal; tenesmo e sensação de evacuação incompleta.
- Obstipação em 30 a 67% e incontinência fecal, de grau variável, em 50 a 70%.
- Examina-se de preferência com o doente a fazer esforço sentado ou depois de um clister, para o prolapso sair.
- O prolapso completo tem pregas concêntricas e circulares; o prolapso mucoso e hemorroidário tem sulcos radiais.
- Colonoscopia para excluir neoplasia ou pólipo que sirva de cabeça de invaginação e outras doenças associadas.
- Seletivamente: defecografia (por fluoroscopia ou ressonância) para outros defeitos do pavimento pélvico, estudo do trânsito cólico se houver obstipação, e manometria e ecografia endoanal se houver incontinência.
- O prolapso completo não se corrige sem cirurgia. Fibra e laxantes aliviam a obstipação e a incontinência, mas não o curam.
- Doente com risco cirúrgico aceitável: via abdominal com retopexia (fixação do reto ao sacro), hoje por laparoscopia ou robótica. É a reparação mais duradoura, com recidiva inferior a 10%. Pode ser retopexia posterior com sutura ou retopexia ventral com rede; não há evidência de que uma seja melhor.
- Com obstipação prévia, junta-se a ressecção do sigmoide à retopexia.
- Doente idoso e frágil: via perineal, que evita a abdominal mas recidiva mais. A retossigmoidectomia perineal (Altemeier) resseca o intestino prolapsado; a operação de Delorme (ressecção da mucosa e plicatura do músculo) serve os prolapsos curtos.
- Os procedimentos de encerclagem anal foram abandonados.
- Criança: cerca de 20% das crianças com prolapso retal têm fibrose quística, e por isso toda a criança com prolapso faz prova do suor.
- Úlcera retal solitária: úlcera ou úlceras na parede anterior do reto distal, associada à intussusceção interna; dá dor, sangue, muco e obstrução da saída. Biopsa-se sempre, para excluir neoplasia. Trata-se primeiro com fibra, treino defecatório para não fazer esforço e laxantes ou clisteres; a cirurgia fica para quem falha tudo.
- Passagem involuntária de fezes durante pelo menos um mês, a partir dos 4 anos de idade de desenvolvimento.
- Vai da perda ocasional de gases ou de fezes líquidas à perda diária de fezes sólidas.
- Mais frequente na mulher, depois dos 65 anos e depois de partos; metade dos doentes tem também incontinência urinária.
- A continência depende do esfíncter interno (pressão de repouso), do esfíncter externo e do puborretal (contração voluntária), da sensibilidade e complacência do reto e da consistência das fezes. A causa é muitas vezes multifatorial, e a diarreia contribui com frequência.
| Tipo | Causas |
|---|---|
| Traumática | lesão obstétrica do esfíncter, a causa traumática mais frequente; cirurgia anorretal (hemorroidectomia, esfincterotomia, fístula); traumatismo pélvico |
| Neurogénica | lesão do nervo pudendo, doenças do sistema nervoso central e da medula, cauda equina |
| Estrutural | prolapso retal, malformações congénitas |
| Por regurgitação | fecaloma ou neoplasia obstrutiva |
| Por fezes | diarreia de qualquer causa, cólon irritável, depois de colecistectomia |
| Outras | diabetes, hipotiroidismo, esclerodermia, miopatias |
- A lesão do esfíncter é reconhecida em 4 a 10% dos partos vaginais, mas uma lesão oculta pode existir em 21 a 35% das mulheres depois de um parto vaginal. O parto instrumentado e a multiparidade aumentam o risco, e a incontinência pode surgir décadas depois.
- História dirigida: partos, cirurgias anorretais, consistência e frequência das fezes, fármacos; e uma escala de gravidade e de impacto na qualidade de vida (por exemplo a de Wexner).
- Exame físico: cicatrizes perianais, prolapso, fístula; toque retal com o tónus em repouso e na contração. O reflexo anocutâneo abolido sugere lesão neurológica.
- Manometria anorretal para medir as pressões de repouso e de contração, a sensibilidade e a complacência.
- Ecografia endoanal para ver o defeito do esfíncter quando se pondera repará-lo.
- A latência motora do nervo pudendo não se pede por rotina.
- Colonoscopia segundo as regras do rastreio e quando há alteração do trânsito ou sangue.
- Primeira linha: dieta e fármacos. Fibra para dar corpo às fezes, loperamida e sequestrantes de ácidos biliares na diarreia. Tratar a causa da diarreia.
- Treino intestinal e biofeedback, que fortalece o esfíncter externo; sem riscos, entra cedo.
- Esfincteroplastia de sobreposição no defeito do esfíncter externo, sabendo que o resultado se degrada com o tempo (falha em cerca de metade aos 5 anos). Não se repete depois de falhar.
- Neuromodulação sagrada (estimulação da terceira raiz sagrada): opção cirúrgica de primeira linha, com ou sem defeito do esfíncter. Faz-se primeiro uma prova temporária, e só se implanta o estimulador definitivo se os episódios caírem pelo menos 50%.
- Agentes de preenchimento injetáveis não se recomendam por rotina, e a radiofrequência no esfíncter não se recomenda.
- Clisteres anterógrados no doente motivado que quer evitar um estoma; colostomia para quem falhou ou não quer as outras opções.
- Comichão perianal intensa, muito frequente, com muitas causas possíveis.
- A maioria é idiopática, ligada à higiene local, e a fatores neurogénicos ou psicogénicos, mas só se chama idiopática depois de procurar as causas.
Causas a procurar
| Grupo | Exemplos |
|---|---|
| Anatómicas, corrigíveis | hemorroidas prolapsadas, fissura, fístula, ectrópio, neoplasia |
| Infeções | fungos (Candida), oxiúros (Enterobius vermicularis, sobretudo na criança), sarna, pediculose, eritrasma, sífilis, condilomas por HPV (vírus do papiloma humano) |
| Dermatológicas | dermatite de contacto (muitas vezes pelos próprios tópicos), psoríase, dermatite seborreica |
| Sistémicas | icterícia, diabetes |
| Por antibióticos | que favorecem a candidíase |
- Inspeção e anuscopia à procura de causa anatómica.
- Biópsia ou cultura quando se suspeita de infeção ou de dermatose. Lesões que não coçam mas alteram a pele perianal (doença de Paget, neoplasia intraepitelial, carcinoma) também se biopsam.
- Tratar a causa, se houver.
- Na forma idiopática: retirar irritantes e tópicos desnecessários, higiene suave e secagem da pele, ajuste da dieta e não coçar.
- Pomada de hidrocortisona a 0,5 a 1% alivia, mas não por períodos prolongados, pelo risco de atrofia da pele.
- Barreiras cutâneas; anti-histamínicos sistémicos ou antidepressivos tricíclicos têm sido usados com algum sucesso.
Referências
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- Kwaan MR, Stewart DB, Bullard Dunn K. Colon, rectum, and anus. In: Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, Dunn DL, Kao LS, Hunter JG, et al., editors. Schwartz's principles of surgery. 11th ed. New York: McGraw-Hill; 2019. p. 1268-70, 1284-5, 1305-23.
- Gearhart SL. Diverticular disease and common anorectal disorders. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. p. 2497-506.
- Administração Regional de Saúde do Norte. Rastreio do cancro do cólon e reto [Internet]. Porto: ARS Norte; [consultado 2026 set 28]. Disponível em: https://www.arsnorte.min-saude.pt/ratreios/cancro-do-colon-e-recto/
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