Neoplasias primárias e secundárias do fígado
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
O fígado é o órgão mais atingido por metástases, e estas superam de longe os tumores primários. Um nódulo hepático lê-se sempre pelo contexto: numa mulher jovem sem doença hepática é quase sempre benigno, num cirrótico é carcinoma hepatocelular até prova em contrário, e num doente com cancro digestivo é uma metástase.
Das lesões benignas, o hemangioma e a hiperplasia nodular focal típicos não se tratam nem se vigiam. O adenoma é a exceção: associa-se à pílula e aos anabolizantes, pode sangrar e malignizar, e resseca-se acima de 5 cm, no homem, ou com beta-catenina ativada.
O carcinoma hepatocelular nasce em 80% dos casos sobre cirrose, e o vírus da hepatite B pode causá-lo sem ela. Por isso se vigia todo o cirrótico tratável com ecografia de 6 em 6 meses. É dos raros cancros que se diagnosticam sem biópsia: no fígado de risco, um nódulo de 1 cm ou mais com captação arterial e lavagem basta. O tratamento segue o sistema de Barcelona: resseção, transplante ou ablação na doença precoce, quimioembolização na intermédia, e associações com imunoterapia na avançada, sempre com a função hepática e a hipertensão portal a pesarem na escolha.
O colangiocarcinoma é a segunda neoplasia primária do fígado. O intra-hepático apresenta-se como massa e exige biópsia; o peri-hilar dá icterícia indolor e estuda-se antes de qualquer prótese. Só a resseção com linfadenectomia cura, e segue-se capecitabina.
Nas metástases colorretais, a resseção com margens livres pode curar, e a ressecabilidade mede-se pelo fígado que fica. O que não se pode falhar: biopsar um hemangioma, tirar da vigilância o cirrótico curado da hepatite C, dar bevacizumab sem ver as varizes, e desistir de metástases que a quimioterapia de conversão pode tornar operáveis.
São achados muito mais frequentes do que os tumores malignos e, na maioria, descobertos por acaso numa ecografia pedida por outro motivo. As três lesões sólidas a conhecer são o hemangioma, a hiperplasia nodular focal e o adenoma hepatocelular; o quisto simples é a lesão hepática mais frequente de todas, mas é líquido.
| lesão | frequência | quem |
|---|---|---|
| Hemangioma | o tumor benigno sólido mais comum; cerca de 5% da população em séries de imagem | mais diagnosticado em mulheres dos 30 aos 50 anos |
| Hiperplasia nodular focal | a segunda lesão benigna sólida; 0,4 a 3% em autópsia | até 90% mulheres, dos 35 aos 50 anos; múltipla em 20 a 30% |
| Adenoma hepatocelular | raro, cerca de 10 vezes menos frequente do que a hiperplasia nodular focal | mulheres dos 35 aos 40 anos, razão mulher para homem de 10 para 1 |
- Hemangioma: malformação vascular congénita, feita de grandes espaços vasculares revestidos por endotélio. Pode variar de tamanho ao longo do tempo, mas o tamanho não se relaciona com complicações.
- Hiperplasia nodular focal: proliferação policlonal de hepatócitos, em resposta a uma artéria anómala. É essa artéria que dá a cicatriz central com septos fibrosos a irradiar. A gravidez e os contracetivos orais não provaram ter papel no seu aparecimento nem na sua evolução.
- Adenoma hepatocelular: proliferação clonal benigna de hepatócitos, sem canais biliares nem células de Kupffer, nascida de uma mutação condutora única. Os fatores de risco são os contracetivos orais (risco 30 a 40 vezes maior no uso prolongado), os esteroides anabolizantes no homem, a obesidade e a síndrome metabólica.
Subtipos moleculares do adenoma
| subtipo | frequência | o que significa |
|---|---|---|
| Inflamatório | 50 a 60% | mulheres com obesidade ou diabetes |
| Com HNF1A (fator nuclear dos hepatócitos 1 alfa) inativado | abaixo de 5 cm pode vigiar-se | |
| Com beta-catenina ativada (mutação de CTNNB1) | 10 a 20% | o que maligniza; mais frequente no homem tratado com androgénios |
- Os três são quase sempre assintomáticos e achados incidentais.
- O hemangioma gigante pode comprimir órgãos vizinhos ou sofrer trombose intermitente, com dor. Raramente sangra. A síndrome de Kasabach-Merritt (consumo de plaquetas e fatores de coagulação dentro do hemangioma) é rara e foi descrita na gravidez em hemangiomas acima de 5 cm.
- A hiperplasia nodular focal não rompe nem maligniza; os sintomas correlacionam-se mal com a lesão.
- O adenoma pode dar dor abdominal e, em 10 a 25% dos casos, apresenta-se com hemorragia intraperitoneal espontânea. A hemorragia associa-se ao tamanho de 5 cm ou mais e ao crescimento exofítico.
Imagem
A caracterização faz-se por imagem com contraste em várias fases; a ressonância é o exame de referência para a hiperplasia nodular focal e o adenoma.
| lesão | padrão |
|---|---|
| Hemangioma | na ecografia de um fígado normal basta, sem mais exames; na TC ou ressonância, realce periférico nodular e descontínuo, com enchimento centrípeto progressivo; hiperintenso em T2 |
| Hiperplasia nodular focal | realce arterial intenso e homogéneo, isodensa na fase venosa, com cicatriz central; na ressonância com os achados típicos, a especificidade é de quase 100% |
| Adenoma | bem delimitado, realce arterial, sem cicatriz; hiperintenso em T1; o contraste hepatoespecífico ajuda a separá-lo da hiperplasia nodular focal |
- No doente oncológico ou cirrótico, o hemangioma precisa de imagem com contraste: aí a ecografia não chega.
- A biópsia fica para a hiperplasia nodular focal atípica, para o adenoma de diagnóstico incerto e para quando é preciso excluir malignidade.
Diagnóstico diferencial
- Carcinoma hepatocelular (cirrótico, captação arterial com lavagem), metástases (neoplasia conhecida, lesões múltiplas), colangiocarcinoma intra-hepático.
- Lesões quísticas: quisto simples, abcesso piogénico ou amebiano, e quisto hidático, que é uma parasitose e não uma neoplasia.
- Hamartoma biliar: lesões de 2 a 4 mm, à superfície do fígado, que se confundem com pequenas metástases.
| lesão | conduta |
|---|---|
| Hemangioma | conservadora, sem seguimento; gravidez e contracetivos não estão contraindicados; cirurgia só excecionalmente (sintomas de compressão, crescimento, Kasabach-Merritt) |
| Hiperplasia nodular focal | com diagnóstico firme e sem sintomas, alta sem seguimento; não é preciso suspender os contracetivos; cirurgia só em casos excecionais (pediculada, em crescimento, exofítica) |
| Adenoma | abaixo |
Adenoma hepatocelular
- Na mulher: suspender os contracetivos orais e controlar o peso, e reavaliar com ressonância ao fim de 6 meses.
- Resseção se, aos 6 meses, continuar com mais de 5 cm ou tiver crescido (20% ou mais no diâmetro).
- No homem: resseção seja qual for o tamanho, pela maior taxa de malignização.
- Beta-catenina ativada na biópsia: tratamento curativo seja qual for o tamanho.
- Abaixo de 5 cm, sem os fatores anteriores: vigilância por imagem de 6 em 6 meses; estável ao fim de 12 meses, passa a anual.
- A embolização e a ablação são alternativas só para quem não pode ser operado.
- Hemorragia clinicamente evidente: internamento e TC com contraste; na hemorragia major, reanimação e embolização da artéria que sangra, com resseção depois de estabilizar.
Gravidez
- Hemangioma estável e assintomático: a gravidez não está contraindicada.
- Hiperplasia nodular focal: não precisa de seguimento na gravidez.
- Adenoma: ecografia a cada 6 a 12 semanas para vigiar o tamanho, em articulação com a obstetrícia. Abaixo de 5 cm, sem crescimento nem componente exofítico, o parto pode ser vaginal. Se crescer, pondera-se embolização, ou cirurgia antes das 24 semanas nas resseções periféricas pequenas, para poupar o feto à radiação e ao contraste.
Homem
- Um adenoma no homem é sempre para tratamento curativo, e deve fazer perguntar por anabolizantes.
- Tumor maligno primário dos hepatócitos: 85 a 90% dos cancros primários do fígado; o colangiocarcinoma intra-hepático é cerca de 10%.
- O cancro do fígado é o sexto mais frequente no mundo e a terceira causa de morte por cancro; a incidência do carcinoma hepatocelular está a subir na Europa e na América do Norte.
- Predomínio masculino (cerca de 2,5 homens por mulher), com pico entre os 65 e os 70 anos.
- Cerca de 80% surgem sobre cirrose, e um terço dos cirróticos desenvolve-o ao longo da vida.
Fatores de risco
| fator | nota |
|---|---|
| Cirrose de qualquer causa | risco anual de 3 a 8% na cirrose por vírus B ou C, de 1 a 3% nas outras causas |
| Vírus da hepatite B | pode dar carcinoma sem cirrose; carga viral alta, antigénio HBe positivo e história familiar aumentam o risco |
| Vírus da hepatite C | quase só com fibrose avançada ou cirrose; é a principal causa na Europa |
| Álcool e síndrome metabólica | cerca de 30% dos casos |
| Esteato-hepatite não alcoólica (NASH) | 15 a 20% dos casos no Ocidente; 25 a 30% destes surgem sem cirrose |
| Hemocromatose, défice de alfa-1-antitripsina, hepatite autoimune, doença de Wilson | risco mais baixo |
| Aflatoxina B1, tabaco | cofatores; a aflatoxina em regiões endémicas |
Carcinogénese em vários passos
- A lesão crónica, com inflamação, stress oxidativo e ciclos de necrose e regeneração, acumula mutações.
- Na cirrose, a sequência é nódulo displásico de baixo grau, nódulo displásico de alto grau, carcinoma precoce. É esta sequência que justifica vigiar o cirrótico.
Genes
| alteração | frequência |
|---|---|
| Promotor da TERT | 56% |
| TP53 | 27%; na exposição à aflatoxina, mutação característica R249S |
| CTNNB1 (beta-catenina, via Wnt) | 26% |
- O vírus B integra-se no genoma (por exemplo, no promotor da TERT), o que explica o carcinoma sem cirrose.
- Só 20 a 25% dos tumores têm uma mutação acionável.
Arterialização
- O fígado normal e os nódulos benignos da cirrose recebem sobretudo sangue portal. Ao progredir para carcinoma, o nódulo perde o aporte portal e passa a depender de artérias neoformadas.
- Daí a captação na fase arterial com lavagem na fase portal ou tardia, que permite o diagnóstico por imagem, e o racional das terapêuticas transarteriais.
- O tumor tende a invadir a veia porta; um trombo portal que capta contraste é muito sugestivo de carcinoma.
- Em fase precoce é assintomático; com vigilância, 70 a 80% são diagnosticados em fase precoce.
- Quando dá sintomas, a doença já está avançada, com sobrevivência mediana abaixo de 1 ano: mal-estar, emagrecimento, anorexia, desconforto no hipocôndrio direito.
- A cirrose de base mascara-o: uma descompensação inexplicada (ascite, encefalopatia, icterícia) ou dor no hipocôndrio direito num cirrótico pode ser a primeira manifestação.
- Outros sinais: sopro ou atrito hepático, ascite hemática, icterícia por invasão biliar, trombose portal ou das veias hepáticas.
Síndromes paraneoplásicas
- Hipoglicemia, hipercalcemia, eritrocitose, hipercolesterolemia, ginecomastia e feminização.
Do nódulo na ecografia ao diagnóstico
| achado na vigilância | conduta |
|---|---|
| Nódulo abaixo de 1 cm | repetir a imagem em cerca de 3 a 4 meses |
| Nódulo de 1 cm ou mais, ou subida da alfafetoproteína | TC multifásica ou ressonância dinâmica com contraste |
| Padrão típico | diagnóstico feito, sem biópsia |
| Padrão atípico | segunda técnica de imagem ou biópsia |
Diagnóstico sem biópsia
- Aplica-se só ao doente de alto risco: cirrose, hepatite B crónica ou carcinoma hepatocelular prévio.
- Usa-se a terminologia LI-RADS (sistema de classificação de imagem hepática do colégio americano de radiologia). A categoria LR-5 é carcinoma hepatocelular:
- 10 a 19 mm: captação arterial não periférica e lavagem não periférica ou crescimento em limiar (aumento de 50% ou mais em 6 meses ou menos);
- 20 mm ou mais: captação arterial não periférica e pelo menos um de: lavagem não periférica, cápsula que capta contraste, crescimento em limiar.
- TC multifásica e ressonância valem o mesmo; na ressonância preferem-se os contrastes extracelulares ao ácido gadoxético. A ecografia com contraste é de segunda linha.
- A categoria LR-M (maligno, não necessariamente carcinoma hepatocelular) obriga a biópsia; o tumor na veia é LR-TIV.
Biópsia
- Necessária sem cirrose ou sem fator de risco, quando a imagem não é típica, e antes de iniciar terapêutica sistémica na doença avançada (ESMO, sociedade europeia de oncologia médica).
- Sensibilidade de 70 a 90%, abaixo de 50% nos nódulos de 1 a 2 cm: uma biópsia negativa não exclui.
- Hemorragia e sementeira no trajeto são raras.
Marcadores
- A alfafetoproteína não serve para diagnosticar: só cerca de 20% dos tumores precoces a têm elevada. Um valor de 400 ng/mL ou mais é muito suspeito mas não diagnóstico. Mede-se ao diagnóstico, porque tem valor prognóstico.
Estadiamento
- TC do tórax, abdómen e pélvis e ressonância hepática. A PET com FDG (fluorodesoxiglicose) não é de rotina.
- Função hepática: classe de Child-Pugh (bilirrubina, albumina, tempo de protrombina, ascite, encefalopatia) ou escala ALBI (albumina e bilirrubina).
- Hipertensão portal clinicamente significativa: gradiente de pressão venosa hepática acima de 10 mmHg ou, de forma indireta, varizes esofágicas ou esplenomegalia com plaquetas abaixo de 100 × 10⁹/L.
- Estado funcional pela escala ECOG (do grupo cooperativo oriental de oncologia, de 0 a 4).
- O sistema de Barcelona (BCLC, atualização de 2022) junta tudo isto e atribui um tratamento a cada estádio.
| estádio | definição | sobrevivência mediana tratada |
|---|---|---|
| 0, muito precoce | nódulo único até 2 cm, função preservada, ECOG 0 | mais de 5 anos |
| A, precoce | único, ou até 3 nódulos até 3 cm, função preservada, ECOG 0 | mais de 5 anos |
| B, intermédio | multinodular, confinado ao fígado, função preservada, ECOG 0 | cerca de 2,5 anos |
| C, avançado | invasão portal, gânglios ou metástases, ou ECOG 1 a 2 | cerca de 2 anos |
| D, terminal | função hepática terminal ou ECOG 3 a 4 | cerca de 3 meses |
Diagnóstico diferencial
- Nódulo de regeneração e nódulo displásico, colangiocarcinoma intra-hepático e tumor misto, metástases, adenoma e hiperplasia nodular focal em fígado não cirrótico.
Prevenção primária
- Vacina contra a hepatite B à nascença, que em Portugal faz parte do Programa Nacional de Vacinação, e vacinação dos seronegativos de alto risco. A vacinação universal reduziu a incidência de carcinoma hepatocelular.
- Tratar a hepatite B com análogos de nucleósidos ou nucleótidos reduz o risco de carcinoma.
- Curar a hepatite C com antivíricos de ação direta reduz o risco em 50 a 80%, mas quem já tem cirrose mantém risco acima de 1% por ano.
- Perda de peso, abstinência de álcool e de tabaco. O café associa-se a menor risco. Estatinas, aspirina e metformina não se recomendam para este fim.
Vigilância
- Quem: todos os cirróticos, de qualquer causa, desde que a função hepática e as comorbilidades permitam tratar um tumor; os portadores de hepatite B crónica com risco moderado ou alto (por exemplo, pela escala PAGE-B, que usa a idade, o sexo e as plaquetas).
- Quem não: o cirrótico Child-Pugh C que não é candidato a transplante. Os doentes em lista de transplante vigiam-se sempre.
- Como: ecografia de 6 em 6 meses, com ou sem alfafetoproteína. Juntar a alfafetoproteína aumenta a sensibilidade e baixa a especificidade.
- O intervalo de 3 meses não melhora os resultados e o de 12 meses dá pior sobrevivência.
- A ecografia perde sensibilidade na obesidade e na esteatose; aí pode usar-se TC ou ressonância.
- A biópsia líquida não se recomenda para vigilância.
A decisão é sempre de uma equipa multidisciplinar e segue o BCLC, com migração de estádio: se o tratamento do estádio não é exequível, passa-se ao do estádio seguinte.
Resseção
- Tumor único acima de 2 cm, Child-Pugh A, sem hipertensão portal clinicamente significativa e com remanescente suficiente.
- Pode considerar-se em doentes selecionados com Child-Pugh B estável ou hipertensão portal ligeira; o Child-Pugh C não se opera.
- No fígado não cirrótico, a resseção é o tratamento preferido do tumor único, seja qual for o tamanho.
- Na cirrose, via minimamente invasiva (laparoscópica ou robótica).
- Recidiva de 50 a 70% aos 5 anos, por metástases intra-hepáticas ou tumores novos.
Transplante
- Trata ao mesmo tempo o tumor e a cirrose; é a opção quando a função hepática ou a hipertensão portal impedem a resseção.
- Critérios de Milão: um nódulo até 5 cm, ou até três nódulos até 3 cm cada, sem invasão macrovascular nem doença extra-hepática. Esperam-se recidiva abaixo de 10% e sobrevivência aos 5 anos de cerca de 70%.
- Os critérios de São Francisco (um nódulo até 6,5 cm, ou até três com o maior até 4,5 cm e soma até 8 cm) são os únicos alargados validados prospetivamente.
- Redução de estádio: quem volta a Milão depois de terapêutica locorregional pode ser transplantado; exige-se alfafetoproteína abaixo de 1000 ng/mL durante pelo menos 3 meses antes da inscrição.
- Ponte: terapêutica locorregional durante a espera prolongada (mais de 3 meses segundo a ESMO, mais de 6 meses segundo a EASL, associação europeia para o estudo do fígado).
Ablação
- Micro-ondas ou radiofrequência, sem preferência entre as duas.
- Tratamento recomendado no estádio 0 e alternativa à resseção no estádio A.
- Também em tumor único de 3 a 5 cm, ou até três até 3 cm, em quem não é candidato a cirurgia ou como ponte para transplante.
- No tumor único até 2 cm, preferida à resseção quando esta exigiria uma hepatectomia major.
- A injeção de etanol já não tem papel. Radioterapia estereotáxica, protões e braquiterapia são alternativas quando a ablação térmica não é possível.
Terapêuticas transarteriais
| técnica | lugar |
|---|---|
| Quimioembolização (convencional com lipiodol ou com esferas com doxorrubicina, equivalentes) | tratamento do estádio B com função preservada e carga tumoral baixa |
| Embolização simples | alternativa à quimioembolização |
| Radioembolização com ítrio-90 | alternativa à quimioembolização no estádio B; opção no tumor único até 8 cm não favorável a resseção; preferida à quimioembolização nos tumores pequenos em lista de transplante (ESMO) |
- Para-se a quimioembolização se não houver necrose substancial depois da segunda sessão, ou se o tumor progredir.
- Não se associa quimioembolização a inibidor de tirosina-cinase.
- Contraindicações: cirrose descompensada e carga tumoral extensa; relativas, Child-Pugh B ou pior, varizes de alto risco e, para a quimioembolização, trombose portal.
- A radioembolização não substitui a terapêutica sistémica na invasão portal (EASL).
Terapêutica sistémica
Candidatos: estádio C, ou estádio B que não serve ou progrediu nas terapêuticas locais, com Child-Pugh A e ECOG 0 a 1.
| linha | opções |
|---|---|
| Primeira | atezolizumab com bevacizumab ou durvalumab com tremelimumab, ao mesmo nível de recomendação; nivolumab com ipilimumab é também opção |
| Contraindicação à associação de imunoterapia | durvalumab isolado |
| Contraindicação à imunoterapia | lenvatinib (preferido) ou sorafenib |
| Segunda | depois do sorafenib, regorafenib ou cabozantinib; ramucirumab se a alfafetoproteína for 400 ng/mL ou mais; depois da imunoterapia, lenvatinib ou sorafenib |
- Antes do bevacizumab, endoscopia para procurar e tratar varizes no doente com hipertensão portal; o bevacizumab aumenta o risco de hemorragia varicosa e não se dá se esse risco existir.
- A quimioterapia clássica não aumenta a sobrevivência.
- Estádio D: cuidados de suporte, incluindo radioterapia para a dor.
O que não se faz
- Adjuvância depois de resseção, ablação ou transplante.
- Quimioembolização com inibidor de tirosina-cinase.
- Biópsia líquida para diagnóstico ou vigilância.
Seguimento
- Depois de resseção ou ablação: TC ou ressonância multifásica de 3 em 3 meses nos primeiros 2 anos, depois de 6 em 6 meses até aos 5 anos.
Da doença
- Rotura espontânea com hemoperitoneu: dor abdominal súbita e choque hemorrágico, com mortalidade aguda elevada. A embolização transarterial é a primeira abordagem para parar a hemorragia, e a resseção, quando possível, faz-se depois de estabilizar.
- Trombose tumoral da veia porta: agrava a hipertensão portal, pode precipitar descompensação e coloca o doente no estádio C.
- Descompensação hepática, obstrução biliar e metástases (pulmão, gânglios, osso).
Do tratamento
- Insuficiência hepática depois de hepatectomia, o principal risco da cirurgia na cirrose; por isso se avaliam a função, a hipertensão portal e o volume do fígado remanescente.
- Síndrome pós-embolização (febre e dor abdominal) em cerca de 50% das quimioembolizações; complicações major (abcesso hepático, colecistite isquémica, insuficiência hepática) em menos de 5%.
- Imunoterapia: efeitos imunomediados. Bevacizumab: hipertensão arterial, proteinúria, hemorragia.
Prognóstico
- Depende do tumor e da função hepática.
- Sobrevivência mediana acima de 5 anos nos estádios 0 e A tratados, e de cerca de 10 anos depois de transplante.
- Com terapêutica sistémica de primeira linha, mediana de cerca de 19 meses.
Fígado não cirrótico
- Menos de 20% dos carcinomas; sobretudo na hepatite B e na NASH.
- Os critérios não invasivos não se aplicam e a biópsia é obrigatória.
- A resseção é o tratamento preferido do tumor único, e o fígado saudável permite resseções maiores.
Variante fibrolamelar
- Rara (menos de 1% dos cancros primários), em crianças e adultos jovens, dos 10 aos 30 anos, sem doença hepática de base.
- Fusão DNAJB1-PRKACA em 80 a 100% dos casos.
- Melhor prognóstico do que o carcinoma hepatocelular clássico; tratamento cirúrgico, com indicações menos restritivas. A quimioterapia não é eficaz.
Criança
- O tumor primário do fígado mais frequente na criança é o hepatoblastoma, e não o carcinoma hepatocelular.
Transplantado
- Na recidiva depois do transplante, a imunoterapia está relativamente contraindicada pelo risco de rejeição; usam-se inibidores de tirosina-cinase.
- Adenocarcinoma do epitélio biliar. É a segunda neoplasia primária do fígado, depois do carcinoma hepatocelular.
- Classifica-se pela localização, com o canal biliar de segunda ordem como fronteira:
| tipo | onde | como se apresenta |
|---|---|---|
| Intra-hepático | dentro do fígado, acima dos canais de segunda ordem | massa hepática, sem icterícia |
| Peri-hilar (tumor de Klatskin) | dos canais de segunda ordem até à inserção do cístico | icterícia indolor |
| Distal | do cístico até à ampola | icterícia indolor, imita o cancro da cabeça do pâncreas |
- O peri-hilar é o mais frequente, cerca de metade dos casos. A incidência do intra-hepático está a aumentar.
- Ligeiro predomínio masculino. Sobrevivência global aos 5 anos de cerca de 10%.
Fatores de risco
- A maioria dos casos não tem fator de risco identificável.
- O que os fatores conhecidos têm em comum é inflamação crónica e estase biliar:
- Colangite esclerosante primária, o principal no Ocidente, com risco cumulativo que sobe com a duração da doença: 6% aos 10 anos, 14% aos 20 anos e cerca de 20% aos 30 anos;
- quistos do colédoco e doença de Caroli;
- hepatolitíase;
- parasitas hepáticos (Opisthorchis viverrini, Clonorchis sinensis), no sudeste asiático;
- cirrose e hepatites B e C, sobretudo para o intra-hepático.
Biologia
- O intra-hepático cresce como massa (a forma mais comum), infiltra ao longo dos canais, ou as duas coisas; o peri-hilar cresce ao longo dos canais e invade cedo os linfáticos periductais.
- Por isso a invasão ganglionar é frequente e a linfadenectomia faz parte da cirurgia.
- Cerca de 30 a 40% dos intra-hepáticos têm uma alteração genética com terapêutica dirigida: fusões de FGFR2 e mutações de IDH1, próprias do intra-hepático. A amplificação de HER2 é mais do extra-hepático.
- Intra-hepático: emagrecimento, mal-estar, desconforto abdominal, ou achado incidental numa imagem pedida por outro motivo ou na vigilância da cirrose. Muitas vezes diagnosticado já avançado.
- Peri-hilar: icterícia indolor de instalação aguda em 90%, com prurido, colúria e acolia; colangite como apresentação em 10%.
- No peri-hilar, a obstrução é acima do cístico e a vesícula não se palpa (está colapsada), ao contrário do tumor distal.
Intra-hepático
- Exige confirmação histológica: a imagem não chega, ao contrário do carcinoma hepatocelular.
- Na TC ou ressonância dinâmica, 80% são massas com captação progressiva da fase arterial para a tardia; 10% imitam o carcinoma hepatocelular.
- A biópsia mostra adenocarcinoma que pode ser metástase de outro primário: procura-se o tumor de origem, com imuno-histoquímica.
- Estadiamento: ressonância para a extensão no fígado, TC do tórax e abdómen, e PET para gânglios não visíveis nos outros exames.
- O CA 19-9 acima de 100 U/mL tem valor prognóstico, mas sensibilidade e especificidade de cerca de 60% para o diagnóstico.
- Perfil molecular no doente de alto risco de recidiva ou com doença avançada.
Peri-hilar
- Imagem antes de qualquer prótese: TC e ressonância com colangiopancreatografia, que definem a extensão ao longo dos canais e a invasão da porta e da artéria.
- Doseia-se a IgG4 para excluir colangiopatia associada a IgG4.
- Colangiografia retrógrada endoscópica com escovado para citologia e FISH (hibridação in situ por fluorescência), que sobe a sensibilidade de cerca de 20% para cerca de 40%.
- Laparoscopia de estadiamento antes da cirurgia: há metástases em 15%.
Classificação de Bismuth-Corlette
| tipo | extensão |
|---|---|
| I | canal hepático comum, abaixo da confluência |
| II | confluência, sem os canais de segunda ordem |
| IIIa | confluência e canal hepático direito |
| IIIb | confluência e canal hepático esquerdo |
| IV | os dois canais hepáticos, ou multifocal |
Diagnóstico diferencial
- Intra-hepático: metástase de adenocarcinoma, carcinoma hepatocelular e tumor misto.
- Peri-hilar: colangiopatia associada a IgG4, estenose dominante da colangite esclerosante primária, síndrome de Mirizzi, cancro da vesícula.
- Colangite esclerosante primária: vigilância anual por imagem, de preferência ressonância com colangiopancreatografia, com CA 19-9.
- Cirrose: a ecografia de 6 em 6 meses para o carcinoma hepatocelular pode apanhar também o intra-hepático precoce.
- Nas regiões com parasitas hepáticos: ecografia de 6 em 6 meses nos infetados, campanhas de educação para evitar a infeção, e tratamento com praziquantel.
Intra-hepático
- A resseção com margens livres é o único tratamento curativo, possível em 30 a 40%, com sobrevivência mediana de cerca de 51 meses nos bem selecionados.
- Linfadenectomia regional por rotina, com pelo menos 6 gânglios para estadiar.
- Recidiva de 50 a 60% aos 3 anos.
- O transplante fica para tumores até 3 cm em cirrose, e de preferência em protocolo de estudo.
- Irressecável e limitado ao fígado: terapêuticas transarteriais em doentes selecionados.
Peri-hilar
- Resseção da via biliar extra-hepática com hepatectomia (direita no IIIa, esquerda no IIIb) incluindo o lobo caudado, linfadenectomia e hepaticojejunostomia em Y de Roux.
- A extensão bilateral é contraindicação cirúrgica. A mortalidade perioperatória é alta, sobretudo por insuficiência hepática.
- Antes de uma hepatectomia major com remanescente pequeno, embolização portal do lado a ressecar, e drenagem biliar do lobo que fica.
- Transplante em centros de referência para o peri-hilar irressecável, ou sobre colangite esclerosante primária, abaixo de 3 cm e sem disseminação, depois de quimiorradioterapia neoadjuvante: sobrevivência aos 5 anos de cerca de 70%.
- Irressecável: prótese biliar para drenar e permitir quimioterapia.
Terapêutica sistémica
| situação | tratamento |
|---|---|
| Depois de resseção | capecitabina durante 6 meses |
| Doença avançada, primeira linha | gemcitabina com cisplatina e durvalumab; gemcitabina isolada se o estado geral for mau; oxaliplatina se a função renal preocupar |
| Segunda linha, com alvo | inibidor de FGFR2 (fusões de FGFR2), ivosidenib (mutação de IDH1) |
| Instabilidade de microssatélites | pembrolizumab |
- Colangite e oclusão da prótese; insuficiência hepática depois da hepatectomia major; fístula biliar e estenose da anastomose.
- Prognóstico mau: sobrevivência aos 5 anos de cerca de 10% no conjunto.
- Depois de resseção curativa, cerca de 30% aos 5 anos com gânglios negativos.
- Doença avançada tratada com gemcitabina e cisplatina: mediana de cerca de 1 ano.
- Fatores de mau prognóstico depois da resseção: invasão vascular, gânglios positivos, margens positivas e má diferenciação.
- O fígado é o órgão mais metastizado e as metástases são muito mais frequentes do que os tumores primários.
- A origem mais comum é o cancro colorretal: 50 a 60% destes doentes desenvolvem metástases hepáticas ao longo da doença.
- Outras origens: tumores neuroendócrinos, mama, pulmão, pâncreas, estômago, rim e melanoma.
- O fígado tem dupla circulação: recebe sangue sistémico pela artéria hepática e todo o sangue do tubo digestivo pela veia porta.
- As células dos tumores digestivos chegam pela porta e o fígado é o primeiro filtro: daí que o cancro colorretal metastize primeiro para o fígado e depois para o pulmão.
- Em parte dos doentes a doença fica confinada ao fígado (doença oligometastática), e é isso que torna a resseção potencialmente curativa.
- O fígado regenera: é possível retirar a maior parte dele se o que fica for suficiente e saudável.
- Muitas vezes assintomáticas, descobertas no estadiamento ou no seguimento (subida do antigénio carcinoembrionário).
- Quando volumosas: hepatomegalia dura e nodular, dor no hipocôndrio direito, emagrecimento, icterícia e ascite.
- Metástases de tumores neuroendócrinos: sintomas por libertação hormonal, como a síndrome carcinoide, que surge sobretudo quando há metástases hepáticas.
- TC do tórax, abdómen e pélvis com contraste para estadiar.
- Ressonância hepática quando as metástases parecem ressecáveis, para contar e localizar as lesões, ou para caracterizar lesões atípicas.
- PET com FDG útil com marcadores a subir sem doença visível, ou para confirmar que a doença potencialmente ressecável está mesmo confinada.
- Na doença colorretal, estudo de RAS, BRAF e reparação de erros de emparelhamento logo ao diagnóstico, porque condiciona o tratamento.
- Diagnóstico diferencial: hemangioma, quistos, hamartoma biliar, carcinoma hepatocelular e colangiocarcinoma intra-hepático. Um adenocarcinoma no fígado sem primário conhecido obriga a procurá-lo.
Metástases colorretais
A decisão é de uma equipa multidisciplinar, e a pergunta muda de «o que se tira» para «o que fica».
- Critério técnico: ressecável se for possível tirar tudo com margens livres (R0) deixando fígado remanescente suficiente (por exemplo, pelo menos 30%). O número, o tamanho e a doença bilobar não excluem por si.
- Critério oncológico: prognóstico da doença.
| situação | conduta |
|---|---|
| Ressecável, com critérios favoráveis (metácrona, poucas lesões, um lobo, sem doença extra-hepática) | resseção logo |
| Ressecável, com critérios desfavoráveis (síncrona, mais de 3 metástases, bilobar, doença extra-hepática limitada) | quimioterapia perioperatória com fluoropirimidina e oxaliplatina (FOLFOX: fluorouracilo, ácido folínico e oxaliplatina; 3 meses antes e 3 depois) |
| Potencialmente ressecável | quimioterapia de conversão, com anticorpo anti-EGFR (recetor do fator de crescimento epidérmico) no RAS não mutado do lado esquerdo; reavaliação a 2 a 3 meses e cirurgia logo que ressecável |
| Nunca ressecável | terapêutica sistémica paliativa |
- A cirurgia faz-se 3 a 4 semanas depois da última quimioterapia, ou pelo menos 5 semanas depois do bevacizumab: a quimioterapia prolongada lesa o fígado e aumenta a morbilidade.
- Para chegar à resseção: embolização portal, hepatectomia em dois tempos, resseção com ablação térmica associada.
- A ablação térmica serve para lesões pequenas (até 2 a 3 cm), sozinha ou com a cirurgia.
- Sobrevivência aos 5 anos de 20 a 45% depois de resseção R0; mas 55 a 80% recidivam, sobretudo no fígado.
- Fatores de pior prognóstico depois da resseção: gânglios positivos no primário, intervalo livre de doença abaixo de 12 meses, mais de uma metástase, metástase acima de 5 cm e antigénio carcinoembrionário acima de 200 ng/mL.
Metástases de tumores neuroendócrinos
- Evolução lenta, mesmo com doença volumosa, e sintomas hormonais.
- Justificam atitude agressiva: resseção, mesmo de citorredução, ablação, terapêuticas transarteriais e análogos da somatostatina para os sintomas. O transplante é excecional, em doentes muito selecionados.
Outras metástases
- Mama, rim e outros tumores digestivos: resseção em doentes selecionados, com sobrevivência aos 5 anos de 20 a 40%.
- Insuficiência hepática pós-hepatectomia, se o remanescente for pequeno ou lesado pela quimioterapia.
- Fístula biliar e hemorragia depois da resseção.
- Na doença irressecável: insuficiência hepática, icterícia obstrutiva e ascite.
- Metástases neuroendócrinas ressecadas: sobrevivência aos 5 anos de cerca de 60%, mas recidiva frequente.
Referências
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11 perguntas sobre Neoplasias primárias e secundárias do fígado
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