Neoplasias do cólon
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 25 perguntas neste tema
O cancro do cólon é quase sempre um adenocarcinoma, e a maioria nasce de um pólipo: um adenoma ou uma lesão serreada que acumula mutações ao longo de anos até invadir a submucosa. É a segunda causa de cancro e de morte por cancro em Portugal, a idade é o fator de risco dominante, e 2 a 5% dos casos pertencem a síndromes hereditárias, das quais a síndrome de Lynch é a mais frequente.
A apresentação depende do lado. À direita, onde o lúmen é largo e as fezes são líquidas, o tumor sangra devagar e revela-se por anemia ferropénica; à esquerda, onde o lúmen é estreito e as fezes são formadas, altera o trânsito, dá hematoquézia e obstrui. Muitos doentes não têm sintomas e são encontrados pelo rastreio, que em Portugal é o teste imunoquímico de sangue oculto nas fezes de 2 em 2 anos entre os 50 e os 74 anos.
O diagnóstico é histológico, por colonoscopia total, que também procura lesões sincrónicas; o estadiamento faz-se com TC toracoabdominopélvica e antigénio carcinoembrionário, e a classificação definitiva sai da peça operatória. O estado de reparação de emparelhamentos do ADN determina-se em todos os tumores, pelo prognóstico, pela decisão de adjuvância e pela suspeita de Lynch.
O tratamento curativo é a colectomia oncológica, cuja extensão segue a vascularização e que tem de colher pelo menos 12 gânglios. O estádio III leva quimioterapia com fluoropirimidina e oxaliplatina; o estádio II decide-se pelos fatores de risco. As metástases hepáticas ou pulmonares ressecáveis ainda podem ser curadas.
O que não se pode falhar é a anemia ferropénica sem causa num homem ou numa mulher pós-menopausa, a hematoquézia atribuída a hemorroidas sem ver o cólon, e o cólon esquerdo obstruído com o ceco a distender, que é uma urgência.
Colonoscopia total com biópsia
- Exame de eleição, sempre que não haja obstrução nem hemorragia maciça que imponham cirurgia urgente.
- Confirma o diagnóstico (que é sempre histológico), procura lesões sincrónicas (presentes em até 5%) e permite tatuar a lesão para o cirurgião a encontrar em laparoscopia.
- Se o tumor não deixa passar o endoscópio: colonoscopia esquerda limitada com colonografia por TC. Se nada disto for possível antes da cirurgia, a colonoscopia completa faz-se 3 a 6 meses depois.
- No doente obstruído não se faz preparação intestinal.
Estadiamento
| Exame | Papel |
|---|---|
| TC toracoabdominopélvica com contraste | exame preferido para metástases, extensão local e complicações (obstrução, perfuração, fístula, abcesso); sensibilidade fraca para a carcinomatose |
| Ressonância com contraste | relação de tumores localmente avançados com as estruturas vizinhas, lesões hepáticas duvidosas; substitui a TC com alergia ao contraste iodado ou taxa de filtração glomerular abaixo de 30 mL/min |
| Tomografia por emissão de positrões com fluorodesoxiglicose | não se usa por rotina; só para esclarecer achados duvidosos |
| Antigénio carcinoembrionário (CEA) | doseia-se antes da cirurgia; não diagnostica nem rastreia, mas é prognóstico e é a base do seguimento |
| Laboratório | hemograma, coagulação, função hepática e renal, albumina |
Ao contrário do reto, o cólon não leva ressonância pélvica de estadiamento local.
Classificação TNM (8.ª edição)
- T: Tis intramucosa; T1 submucosa; T2 muscular própria; T3 atravessa a muscular própria até ao tecido pericólico; T4a atravessa o peritoneu visceral, incluindo a perfuração através do tumor; T4b invade ou adere a órgãos vizinhos.
- N: N1 1 a 3 gânglios (N1a um, N1b dois ou três); N1c depósitos tumorais sem gânglio positivo; N2 4 ou mais (N2a 4 a 6, N2b 7 ou mais).
- M: M1a um órgão; M1b dois ou mais; M1c peritoneu, com ou sem outros órgãos.
| Estádio | Definição | Sobrevida aos 5 anos só com cirurgia |
|---|---|---|
| I | T1-2 N0 | 99% |
| II | T3-4 N0 (IIA T3, IIB T4a, IIC T4b) | 68 a 83% |
| III | qualquer T, N positivo | 45 a 65% |
| IV | M1 (IVA, IVB, IVC pela categoria M) | baixa, exceto metástases ressecáveis |
No cólon, a distinção entre os estádios I, II e III é patológica: faz-se na peça operatória, que tem de ter pelo menos 12 gânglios.
O relatório anatomopatológico
Tipo e grau histológicos, extensão na parede e aos órgãos vizinhos, perfuração, margens proximal, distal e radial, depósitos tumorais, invasão linfovascular e perineural, budding tumoral, número de gânglios colhidos e invadidos, e estado de reparação de emparelhamentos (imuno-histoquímica de MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2, ou pesquisa de instabilidade de microssatélites), que se determina em todos os tumores.
| Perda na imuno-histoquímica | Interpretação |
|---|---|
| MSH2 ou MSH6 | suspeita de síndrome de Lynch: aconselhamento genético |
| MLH1 e PMS2 | pesquisar mutação BRAF V600E ou metilação do promotor de MLH1; se presentes, tumor esporádico |
Na doença metastática acrescenta-se o estudo de RAS e BRAF, que decide a terapêutica dirigida.
Diagnóstico diferencial
| Apresentação | Considerar |
|---|---|
| Hematoquézia | hemorroidas, fissura anal, hemorragia diverticular, angiodisplasia, colite isquémica, doença inflamatória intestinal |
| Alteração do trânsito e dor no quadrante inferior esquerdo | diverticulite, síndrome do intestino irritável, colite |
| Massa na fossa ilíaca direita | abcesso apendicular, doença de Crohn ileocecal, linfoma, tuberculose intestinal |
| Anemia ferropénica | perdas digestivas altas, doença celíaca, perdas ginecológicas |
Porque se rastreia
É frequente, tem uma lesão precursora que se remove, uma fase pré-clínica longa e tratamento eficaz quando é precoce: 90% dos doentes diagnosticados no estádio I estão vivos aos 5 anos, contra 10% no estádio IV. O rastreio reduz a incidência e a mortalidade.
Programa de base populacional (Norma DGS 011/2025)
- Quem: pessoas que, no ano do convite, completam entre 50 e 74 anos.
- Teste: pesquisa de sangue oculto nas fezes por método imunoquímico, numa amostra única recolhida em casa; positivo a partir de 100 ng/mL. Deteta hemoglobina humana e dispensa restrições alimentares.
- Negativo: repete 2 anos depois.
- Positivo: consulta numa unidade de rastreio até 30 dias depois do resultado e colonoscopia até 15 dias depois da consulta.
- Teste inconclusivo: repete-se com novo kit. Colonoscopia inconclusiva (preparação inadequada ou sem chegar ao cego): repete em até 90 dias.
| Excluídos | Quem |
|---|---|
| Definitivamente | cancro colorretal prévio; doença inflamatória intestinal; síndromes hereditárias (polipose adenomatosa familiar, Lynch, polipose associada a MUTYH) |
| Temporariamente | colonoscopia de qualidade nos 5 anos anteriores sem lesões a vigiar; teste positivo prévio sem completar o plano; autoexclusão formal |
Os excluídos em definitivo não deixam de ser vigiados: saem do rastreio populacional porque têm vigilância própria, mais intensa.
Depois da colonoscopia de rastreio
| Achado | Próximo passo |
|---|---|
| Sem lesões, com preparação adequada | teste imunoquímico aos 5 anos |
| 1 a 4 adenomas abaixo de 1 cm com displasia de baixo grau, ou lesões serreadas abaixo de 1 cm sem displasia | teste imunoquímico aos 5 anos |
| Mais de 4 adenomas, ou adenoma de 1 cm ou mais, ou displasia de alto grau, ou lesão serreada de 1 cm ou mais ou com displasia | colonoscopia aos 3 anos |
| Lesões que exigem tratamento hospitalar, suspeita de síndrome hereditária ou de doença inflamatória | consulta de gastrenterologia hospitalar |
| Neoplasia invasora | referenciação oncológica |
Risco familiar acrescido (Norma DGS 012/2025)
- Quem: pessoas dos 40 aos 74 anos com um familiar de 1.º grau diagnosticado antes dos 50 anos, ou dois ou mais familiares de 1.º grau diagnosticados em qualquer idade.
- Teste: colonoscopia; se normal, repete aos 5 anos. Quem recusar a colonoscopia pode fazer o teste imunoquímico desde os 40 anos.
- Um único familiar de 1.º grau diagnosticado aos 50 anos ou mais não cabe neste programa: segue o rastreio populacional.
Síndromes hereditárias e doença inflamatória intestinal
| Grupo | Vigilância |
|---|---|
| Lynch, MLH1 ou MSH2 | colonoscopia a cada 1 a 2 anos desde os 25 anos |
| Lynch, MSH6 ou PMS2 | a cada 1 a 2 anos desde os 35 anos |
| Lynch, ginecológica | ecografia transvaginal e biópsia do endométrio anuais desde os 30 a 35 anos; cirurgia profilática quando não deseja ter mais filhos ou depois da menopausa |
| Polipose adenomatosa familiar | sigmoidoscopia ou colonoscopia a cada 1 a 2 anos desde os 12 a 15 anos; endoscopia alta a partir dos 25 anos |
| Doença inflamatória intestinal do cólon | primeira colonoscopia 8 anos depois do início dos sintomas, com cromoendoscopia; depois de 1 a 5 anos conforme o risco |
| Doença inflamatória com colangite esclerosante primária | colonoscopia anual desde o diagnóstico da colangite |
Na síndrome de Lynch, se o cancro mais precoce da família surgiu antes, começa-se 5 anos antes dessa idade.
Prevenção primária
Controlar o peso, fazer atividade física, deixar de fumar, limitar o álcool e a carne vermelha e processada, comer fibra, fruta e legumes.
Pólipo com carcinoma
| Achado | Conduta |
|---|---|
| Carcinoma intramucoso (pTis) ressecado em bloco | a polipectomia chega |
| pT1 em pólipo pediculado confinado à cabeça, colo e pé, sem fatores de mau prognóstico | a polipectomia chega, com vigilância |
| pT1 com invasão linfática ou venosa, grau 3 ou budding significativo | colectomia com linfadenectomia |
| Margem de resseção abaixo de 1 mm | pesa a favor da cirurgia; decisão individual em reunião multidisciplinar |
Se o doente não puder ser operado, faz colonoscopia até 6 meses depois e seguimento com TC.
Cirurgia oncológica
A resseção é o único tratamento curativo, e os princípios técnicos decidem o prognóstico.
- Pelo menos 5 cm de cólon de cada lado do tumor, muitas vezes mais por causa da laqueação vascular.
- Laqueação dos pedículos arteriais na origem e resseção do mesocólon em bloco, para colher pelo menos 12 gânglios.
- Resseção em bloco de qualquer órgão aderente (pT4b): separar planos pode deixar tumor.
- Exploração de toda a cavidade peritoneal e dos ovários.
- A laparoscopia é segura com experiência e sem contraindicações: menor morbilidade e os mesmos resultados oncológicos.
| Localização | Operação | Vasos laqueados |
|---|---|---|
| Ceco e ascendente | hemicolectomia direita | ileocólicos, cólicos direitos e ramos direitos dos cólicos médios |
| Ângulo hepático e transverso proximal | hemicolectomia direita alargada | acrescenta os cólicos médios na origem |
| Transverso médio | colectomia transversa ou hemicolectomia direita alargada | cólicos médios |
| Transverso distal, ângulo esplénico e descendente | hemicolectomia esquerda | cólicos esquerdos, ramos esquerdos dos cólicos médios, primeiros sigmoideus |
| Sigmoide | sigmoidectomia | ramos sigmoideus da mesentérica inferior |
Lesões sincrónicas ou história familiar forte podem justificar colectomia subtotal ou total.
Quimioterapia adjuvante
- Antes de qualquer fluoropirimidina pesquisa-se o défice de di-hidropirimidina desidrogenase, que afeta 3 a 5% das pessoas e pode tornar a toxicidade fatal.
- Começa o mais cedo possível, idealmente até 8 semanas depois da cirurgia; o benefício perde-se se começar depois dos 6 meses.
- Benefício absoluto na mortalidade: 3 a 5% no estádio II de alto risco com fluorouracilo isolado; 10 a 15% no estádio III com fluoropirimidina, e mais 4 a 5% com oxaliplatina.
- Regimes: FOLFOX (fluorouracilo em perfusão, ácido folínico e oxaliplatina) ou CAPOX (capecitabina e oxaliplatina). A oxaliplatina suspende-se logo que a neuropatia passe do grau 1.
| Estádio | Conduta |
|---|---|
| I | só cirurgia |
| II de baixo risco | seguimento |
| II de risco intermédio | 6 meses de fluoropirimidina (capecitabina ou fluorouracilo em perfusão) |
| II de alto risco | ponderar juntar oxaliplatina; 3 meses de CAPOX é opção |
| III, baixo risco (T1-3 N1) | 3 meses de CAPOX, ou 6 meses de FOLFOX |
| III, alto risco (T4 ou N2) | 6 meses de CAPOX ou de FOLFOX |
| Sem condições para oxaliplatina | 6 meses de capecitabina ou de fluorouracilo em perfusão |
Fatores de risco no estádio II
| Maiores | Menores |
|---|---|
| menos de 12 gânglios colhidos; pT4, incluindo a perfuração | alto grau; invasão vascular, linfática ou perineural; apresentação com obstrução; CEA pré-operatório elevado |
- Baixo risco: sem fatores, ou com instabilidade de microssatélites sem fatores maiores.
- Risco intermédio: microssatélites estáveis e qualquer fator menor, sem fatores maiores.
- Alto risco: pT4, menos de 12 gânglios ou vários fatores menores, seja qual for o estado dos microssatélites.
- Com instabilidade de microssatélites, a fluoropirimidina isolada não traz benefício: se houver indicação, é sempre com oxaliplatina. No pT4 com instabilidade o benefício é incerto.
A duração por subgrupo do estádio III vem de uma análise conjunta que não a tinha pré-especificado, pelo que se aplica com prudência. Na análise global, 3 meses de CAPOX não foram inferiores a 6, e 3 meses de FOLFOX foram; a neuropatia de grau 2 ou superior desceu de 34% para 11% com 3 meses.
Doença metastática
- Decisão em reunião multidisciplinar, com RAS, BRAF e estado de reparação de emparelhamentos estudados logo ao diagnóstico.
- Metástases hepáticas ressecáveis: cerca de 15% dos doentes com doença sistémica têm metástases só no fígado, e 20% destes são ressecáveis, com sobrevida aos 5 anos de 20 a 40%. As pulmonares isoladas ressecáveis são raras e também podem curar.
- Terapêutica sistémica: fluoropirimidina com oxaliplatina ou irinotecano, mais um anticorpo escolhido pela biologia.
| Biologia | Primeira linha |
|---|---|
| Instabilidade de microssatélites | pembrolizumab |
| RAS não mutado, microssatélites estáveis, cólon esquerdo | quimioterapia com anti-EGFR (cetuximab, panitumumab) |
| RAS não mutado do cólon direito, ou RAS mutado | quimioterapia com bevacizumab |
| BRAF V600E | quimioterapia com bevacizumab; encorafenib com cetuximab depois da progressão |
- O anti-EGFR não funciona com RAS mutado, porque a via continua ativa a jusante do recetor.
- Primário assintomático com metástases irressecáveis: começa-se pela terapêutica sistémica; a cirurgia do primário fica para sintomas.
Seguimento
| Componente | Periodicidade |
|---|---|
| Consulta e CEA | de 3 em 3 a 6 em 6 meses durante 3 anos; de 6 em 6 a 12 em 12 meses no 4.º e 5.º anos |
| TC do tórax e abdómen | de 6 em 6 a 12 em 12 meses nos primeiros 3 anos, no doente com maior risco de recidiva |
| Colonoscopia | ao fim de 1 ano; se normal, de 3 em 3 a 5 em 5 anos |
Uma subida do CEA obriga a procurar recidiva. A colonoscopia procura cancros metácronos, que surgem em 0,7% nos primeiros 2 anos.
Referências
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- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 012/2025, de 20/10/2025: Programa de Rastreio do Cancro do Cólon e Reto para Pessoas com Condição de Risco Acrescido. Lisboa: DGS; 2025.
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25 perguntas sobre Neoplasias do cólon
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