Abordagem cirúrgica à icterícia
Atualizado em 14 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema
A icterícia obstrutiva é o cenário em que a cirurgia entra na equação do doente ictérico. Ao contrário da icterícia hepatocelular ou hemolítica, aqui há um obstáculo mecânico ao fluxo de bílis que, muitas vezes, só se resolve com endoscopia, radiologia de intervenção ou resseção. Este capítulo foca-se na leitura cirúrgica: reconhecer o padrão colestático, mapear a via biliar, distinguir a coledocolitíase benigna do tumor periampular e decidir quando drenar, quando operar e quando estadiar primeiro. O sinal de Courvoisier e a tríade de Charcot são apenas o ponto de partida.
Metabolismo normal da bilirrubina
A bilirrubina resulta da degradação do grupo heme, sobretudo de eritrócitos senescentes no sistema reticuloendotelial. O heme é convertido em biliverdina pela hemo-oxigenase e depois em bilirrubina não conjugada (indireta) pela biliverdina-redutase. Esta bilirrubina é lipossolúvel, insolúvel em água e circula ligada à albumina, pelo que não passa para a urina. No hepatócito é captada e conjugada com ácido glucurónico pela enzima UDP-glucuronosiltransferase (UGT1A1), tornando-se bilirrubina conjugada (direta), hidrossolúvel, excretável na bílis.
No intestino, a bilirrubina conjugada é desconjugada e reduzida pela flora a urobilinogénio. Parte é reabsorvida (circulação êntero-hepática) e parte é oxidada a estercobilina, responsável pela cor das fezes; uma fração de urobilinogénio é excretada na urina como urobilina. Compreender este circuito explica os sinais da obstrução.
Porque surge o padrão colestático na obstrução
Quando há obstáculo mecânico à saída de bílis, a bilirrubina já conjugada reflui para o sangue. Daí três consequências centrais:
- Hiperbilirrubinemia de predomínio direto: a bilirrubina conjugada, hidrossolúvel, filtra-se no rim e surge na urina, dando colúria (urina escura, tipo "chá forte").
- Acolia/hipocolia fecal: sem bílis a chegar ao intestino, não há estercobilina, e as fezes ficam pálidas ("cor de massa de vidraceiro").
- Ausência de urobilinogénio urinário na obstrução completa, porque nenhuma bilirrubina chega ao intestino para ser convertida.
A FA e a GGT sobem porque a estase biliar induz a síntese destas enzimas nos canalículos e no epitélio ductal, e a pressão retrógrada promove a sua libertação. A elevação da FA é geralmente mais precoce e proporcionalmente maior do que a das transaminases, marcando o caráter obstrutivo. O prurido deve-se à retenção de sais biliares e de mediadores pruritogénicos (incluindo a via do ácido lisofosfatídico/autotaxina), e não à bilirrubina em si.
Consequências fisiopatológicas com peso cirúrgico
A colestase prolongada não é inócua e condiciona o risco operatório:
- Coagulopatia por défice de vitamina K: as vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) dependem de bílis para serem absorvidas. Sem bílis no intestino, a absorção de vitamina K cai e os fatores II, VII, IX e X ficam deficitários, prolongando o INR. É corrigível com vitamina K parentérica, ao contrário da coagulopatia por insuficiência hepatocelular. Ponto prático: um doente ictérico obstrutivo com INR alto antes de intervenção deve receber vitamina K.
- Colangite: a estase biliar com pressão intraductal elevada favorece a translocação bacteriana e a infeção da bílis. É a complicação aguda mais temida da obstrução e a que dita drenagem urgente.
- Lesão renal (disfunção renal de tipo hepatorrenal, nefropatia biliar/colémica): a endotoxémia e os sais biliares circulantes contribuem para disfunção renal peri-operatória, aumentando a morbilidade da resseção major em doentes muito ictéricos.
- Atrofia/hipertrofia hepática: na obstrução hilar unilateral prolongada, o lobo obstruído atrofia e o contralateral hipertrofia, um fenómeno explorado cirurgicamente (embolização portal pré-operatória para aumentar o futuro fígado remanescente).
Da fisiopatologia à colangite
A tríade de Charcot (febre com calafrios, dor no hipocôndrio direito e icterícia) traduz precisamente a combinação de obstrução (icterícia, dor) com infeção sob pressão (febre). Quando se acrescenta hipotensão e alteração do estado de consciência, temos a pêntade de Reynolds, que sinaliza colangite tóxica/supurada com choque e é uma emergência de drenagem. A fisiopatologia é a de uma cavidade fechada infetada: enquanto a via biliar não for descomprimida, os antibióticos isolados não controlam a sépsis.
Confirmar que é colestase e localizar o obstáculo
A avaliação segue uma lógica de dois passos: primeiro caracterizar o padrão (colestático vs hepatocelular vs hemolítico), depois localizar e caracterizar a obstrução (nível, causa, ressecabilidade).
A analítica inicial inclui bilirrubina total e direta, FA, GGT, transaminases (AST/ALT), tempo de protrombina/INR e albumina. O padrão colestático (direta ↑, FA e GGT ↑↑, transaminases pouco alteradas) orienta para causa obstrutiva. Um INR prolongado que corrige com vitamina K aponta para colestase e não para falência hepatocelular. Nos casos com suspeita neoplásica, doseia-se o CA 19-9 (marcador de adenocarcinoma pancreático e colangiocarcinoma) e o CEA. Nota importante: o CA 19-9 sobe falsamente na própria colestase/colangite, pelo que só deve ser valorizado após drenagem e normalização da bilirrubina; além disso, doentes com fenótipo Lewis-negativo não o expressam.
Imagem: sequência racional
- Ecografia abdominal é o primeiro exame. Barata, acessível, sem radiação, com boa sensibilidade para dilatação das vias biliares (colédoco > 6-7 mm, ou > 10 mm pós-colecistectomia) e para litíase vesicular. Confirma que a icterícia é obstrutiva e frequentemente localiza o nível (dilatação intra e extra-hepática = obstáculo distal; só intra-hepática = obstáculo hilar). É menos fiável para ver o cálculo no colédoco distal (gás duodenal) e para caracterizar massas pancreáticas.
- TC com contraste (protocolo pancreático, trifásico) é o exame de estadiamento das lesões malignas: define a massa pancreática, a relação com os vasos (artéria mesentérica superior, tronco celíaco, artéria hepática, veia mesentérica superior/porta), invasão local, adenopatias e metástases. É a base da avaliação de ressecabilidade.
- Colangiopancreatografia por RM (CPRM) é o mapa não invasivo da árvore biliar. Mostra a anatomia ductal, o nível e a extensão da estenose e a presença de cálculos, sem risco de pancreatite. É o exame de eleição para planear e para estratificar antes de decidir CPRE.
- CPRE (colangiopancreatografia retrógrada endoscópica) é hoje sobretudo terapêutica, não diagnóstica: permite esfincterotomia, extração de cálculos e colocação de próteses. Reserva-se para quando há intenção de intervir, pelo risco de pancreatite pós-CPRE (cerca de 3 a 10%).
- Ecoendoscopia (EUS) tem elevada sensibilidade para cálculos pequenos do colédoco distal e para pequenas massas pancreáticas, e permite biópsia por agulha fina (FNA/FNB) para diagnóstico tecidual, útil sobretudo quando se planeia terapêutica neoadjuvante.
Coledocolitíase: estratificação de risco (ASGE 2019)
Antes de submeter um doente a CPRE (que não é isenta de risco), estratifica-se a probabilidade de cálculo no colédoco segundo a ASGE 2019, em três grupos:
- Alto risco (> 50%): cálculo visível no colédoco em imagem, colangite clínica, ou bilirrubina total > 4 mg/dL associada a colédoco dilatado. Conduta: CPRE direta (diagnóstica e terapêutica no mesmo tempo).
- Risco intermédio (10 a 50%): alterações analíticas hepáticas, idade > 55 anos, ou colédoco dilatado isolado. Conduta: exame confirmatório antes da CPRE (CPRM, EUS ou colangiografia intraoperatória), para evitar CPRE desnecessária.
- Baixo risco (< 10%): sem os preditores acima. Conduta: colecistectomia sem investigação adicional da via biliar, se indicada.
Face às versões anteriores, a ASGE 2019 subiu o limiar para CPRE direta (menos doentes vão diretos à endoscopia), aumentando a especificidade e reservando a CPRE para quem tem probabilidade real de cálculo.
Diagnóstico de colangite aguda (Tokyo Guidelines TG18)
A colangite não se diagnostica só pela tríade de Charcot (muito específica mas pouco sensível; a icterícia falta em 30 a 40% dos casos). As Tokyo Guidelines TG18 usam três eixos:
- A. Inflamação sistémica: febre/calafrios ou alterações laboratoriais (leucocitose/leucopenia, PCR elevada).
- B. Colestase: icterícia ou provas hepáticas alteradas (FA, GGT, bilirrubina).
- C. Imagem: dilatação biliar ou evidência de etiologia (cálculo, estenose, prótese).
Suspeita com um item de A mais um de B ou C; diagnóstico definitivo com um item de cada categoria (A + B + C). A gravidade classifica-se em Grau I (ligeira), Grau II (moderada) e Grau III (grave), esta última definida por disfunção de órgão (cardiovascular, neurológica, respiratória, renal, hepática ou hematológica). O grau condiciona a urgência da drenagem.
Estadiar antes de decidir
Nas neoplasias, o diagnóstico não termina na deteção da massa: exige estadiamento TNM (8.ª ed.) e classificação de ressecabilidade (ver secção de gestão). Para o colangiocarcinoma hilar acrescenta-se a classificação de Bismuth-Corlette, que mapeia a extensão ductal do tumor e antecipa a extensão da hepatectomia necessária.
Princípio geral
Na icterícia obstrutiva a terapêutica tem dois objetivos: descomprimir a via biliar (aliviar a colestase, tratar/prevenir a colangite) e tratar a causa (extração de cálculo, resseção tumoral, correção de estenose). A ordem e a via dependem de ser benigno ou maligno, da presença de infeção e da ressecabilidade.
Coledocolitíase
O tratamento de eleição é a CPRE com esfincterotomia e extração dos cálculos (com balão ou cesto de Dormia). Cálculos grandes exigem litotrícia mecânica ou colangioscopia com litotrícia. Após limpeza da via biliar, o doente com litíase vesicular associada deve fazer colecistectomia laparoscópica, idealmente na mesma admissão, para prevenir recorrência de cólica, colangite ou pancreatite biliar.
Alternativa num só tempo: exploração laparoscópica da via biliar (transcística ou por coledocotomia) durante a colecistectomia, com colangiografia intraoperatória. É opção quando a CPRE falha, na anatomia alterada (por exemplo, pós-bypass gástrico) ou por preferência de equipas diferenciadas. O acesso percutâneo trans-hepático fica para insucesso das vias anteriores.
Colangite aguda
A colangite é uma emergência com três pilares:
- Ressuscitação e antibioterapia empírica de largo espetro dirigida a Gram-negativos e anaeróbios entéricos, ajustada a hemoculturas e bílis.
- Drenagem biliar, o passo decisivo: a antibioterapia isolada não resolve uma via infetada sob pressão. A via preferencial é endoscópica (CPRE); se indisponível ou falhada, drenagem percutânea trans-hepática (PTBD); a cirurgia de descompressão é hoje excecional.
- Tratamento definitivo da causa depois de resolvida a sépsis.
O momento da drenagem segue a gravidade TG18: urgente no Grau III (grave, com disfunção de órgão) e precoce no Grau II; no Grau I pode-se tentar tratamento conservador com drenagem se não houver resposta em 24 horas.
Adenocarcinoma da cabeça do pâncreas e periampulares
A avaliação de ressecabilidade (NCCN 2024) baseia-se no contacto tumoral com os vasos em TC:
| Categoria | Critério vascular (síntese) | Conduta |
|---|---|---|
| Ressecável | Sem contacto arterial; contacto venoso (VMS/porta) ≤ 180.º sem irregularidade | Cirurgia à cabeça (eventual quimioterapia adjuvante) |
| Borderline | Contacto arterial limitado (AMS/tronco celíaco ≤ 180.º) ou venoso > 180.º/reconstruível | Quimioterapia neoadjuvante (ex.: mFOLFIRINOX) → reavaliar → cirurgia |
| Localmente avançado | Envolvimento arterial extenso (> 180.º) ou venoso irressecável | Quimioterapia; cirurgia só se conversão excecional |
| Metastático | Metástases à distância | Tratamento sistémico paliativo |
A cirurgia curativa da cabeça do pâncreas e periampulares é a duodenopancreatectomia cefálica (operação de Whipple): resseção em bloco da cabeça do pâncreas, duodeno, primeiros centímetros do jejuno, vesícula e via biliar distal e, na versão clássica, do antro gástrico (a variante com preservação do piloro é frequente). A reconstrução faz-se com três anastomoses: pancreatojejunostomia, hepaticojejunostomia e gastro/duodenojejunostomia. A fístula pancreática é a complicação major mais temida.
Drenagem biliar pré-operatória: não deve ser rotineira no doente ressecável, porque aumenta as infeções e complicações peri-operatórias sem benefício de sobrevivência (evidência sintetizada do ensaio de van der Gaag, NEJM 2010). Reserva-se para indicações específicas: colangite, bilirrubina muito elevada (habitualmente > 15 mg/dL segundo alguns autores), atraso previsto da cirurgia ou necessidade de terapêutica neoadjuvante. Quando indicada, prefere-se prótese metálica curta por CPRE.
Colangiocarcinoma
- Hilar (tumor de Klatskin): a estratégia depende da classificação de Bismuth-Corlette (extensão ductal). Tipos I/II podem exigir resseção da via biliar com ou sem hepatectomia; tipos III implicam hepatectomia major (direita ou esquerda) com resseção do lobo caudado (drenagem biliar direta para o hilo); o tipo IV, com envolvimento das ramificações secundárias de ambos os lados, é frequentemente irressecável e só operável em doentes muito selecionados. A resseção exige margens negativas (R0), linfadenectomia do hilo e, muitas vezes, avaliação do futuro fígado remanescente com embolização portal pré-operatória do lobo a ressecar.
- Distal: tratado como periampular, com duodenopancreatectomia cefálica.
- Intra-hepático: hepatectomia com linfadenectomia.
Paliação da icterícia obstrutiva
Em doença irressecável ou doente não candidato a cirurgia, o objetivo é aliviar icterícia, prurido e colangite:
- Prótese biliar por CPRE (metálica autoexpansível em doença maligna com expectativa de vida razoável; plástica em cenários temporários), a via preferencial.
- Drenagem percutânea trans-hepática quando a via endoscópica falha ou a anatomia não a permite.
- Derivações cirúrgicas (hepaticojejunostomia; gastrojejunostomia se obstrução duodenal associada) são hoje menos comuns, reservadas a irressecabilidade descoberta em laparotomia ou a falência das opções endoscópica/percutânea. Não esquecer o controlo do prurido (colestiramina, rifampicina) e a suplementação de vitaminas lipossolúveis.
Referências
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- Brunicardi FC, et al. Schwartz's Principles of Surgery. 11.ª ed. McGraw-Hill; 2019 (capítulos de vias biliares e pâncreas).
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- NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Pancreatic Adenocarcinoma. Version 2024.
- NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Biliary Tract Cancers. Version 2024.
- Vogel A, Bridgewater J, Edeline J, et al. Biliary tract cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2023;34(2):127-140.
- Amin MB, Edge SB, et al. AJCC Cancer Staging Manual. 8.ª ed. Springer; 2017 (TNM vias biliares e pâncreas).
- Bismuth H, Corlette MB. Intrahepatic cholangioenteric anastomosis in carcinoma of the hilus of the liver. Surg Gynecol Obstet. 1975;140(2):170-178.
- van der Gaag NA, Rauws EAJ, van Eijck CHJ, et al. Preoperative biliary drainage for cancer of the head of the pancreas. N Engl J Med. 2010;362(2):129-137.
- Direção-Geral da Saúde. Normas de Orientação Clínica sobre litíase biliar e neoplasia do pâncreas (síntese aplicada ao contexto português).
- UpToDate. Approach to the adult with jaundice; Choledocholithiasis; Clinical manifestations and diagnosis of cholangiocarcinoma (síntese, consulta 2026).
8 perguntas sobre Icterícia
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