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Abordagem cirúrgica à icterícia

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema

Em resumo

A icterícia que interessa ao cirurgião é a obstrutiva: há um obstáculo mecânico à passagem da bílis entre o hepatócito e o duodeno, a bilirrubina já conjugada reflui para o sangue e aparecem a colúria, a acolia e o prurido. Nota-se na pele e nas escleróticas a partir de 2,5 a 3 mg/dL de bilirrubina, e o padrão analítico é colestático, com bilirrubina direta e fosfatase alcalina elevadas e transaminases pouco alteradas.

A causa mais frequente é o cálculo no colédoco, que dá icterícia flutuante, com dor e muitas vezes febre. A que não se pode falhar é a neoplasia: os tumores periampulares (cabeça do pâncreas, ampola, colédoco distal, duodeno) e o colangiocarcinoma peri-hilar dão icterícia progressiva, quase indolor, com emagrecimento. A vesícula palpável e indolor do sinal de Courvoisier aponta para um obstáculo maligno abaixo do cístico.

A ecografia confirma a dilatação da via biliar e diz a que nível está o obstáculo. A colangiopancreatografia por ressonância mapeia a árvore biliar, a tomografia computorizada estadia a massa e decide a ressecabilidade, e a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica fica para tratar. Nos tumores, a imagem de estadiamento faz-se antes de pôr qualquer prótese.

A obstrução com bílis infetada é a colangite, que se drena com urgência conforme a gravidade. No cancro ressecável da cabeça do pâncreas opera-se sem drenar antes, salvo colangite, sintomas graves, cirurgia adiada ou neoadjuvância; no colangiocarcinoma peri-hilar, que exige hepatectomia major, a drenagem do fígado que vai ficar faz quase sempre parte da preparação. O que não se pode falhar é a colangite grave por drenar, a coagulopatia por corrigir antes de intervir e o doente com tumor ressecável tratado sem passar por um centro com experiência.

Metabolismo da bilirrubina

  • O heme, sobretudo dos eritrócitos senescentes, passa a biliverdina pela hemo-oxigenase e a bilirrubina não conjugada pela biliverdina-redutase.
  • A bilirrubina não conjugada é lipossolúvel, circula ligada à albumina e não passa para a urina.
  • No hepatócito é conjugada com ácido glucurónico pela UDP-glucuronosiltransferase. A bilirrubina conjugada é hidrossolúvel e sai na bílis.
  • No intestino, as bactérias transformam-na em urobilinogénio: uma parte volta ao fígado pela circulação entero-hepática, outra dá a estercobilina, que cora as fezes.

Porque a obstrução dá este quadro

  • A bilirrubina já conjugada reflui para o sangue: hiperbilirrubinemia direta, que se filtra no rim e dá colúria.
  • Sem bílis no intestino não se forma estercobilina: acolia. Na obstrução completa desaparece também o urobilinogénio urinário.
  • A fosfatase alcalina e a gama-glutamil-transferase vivem junto ao canalículo e no epitélio dos canais, e sobem com a estase. A gama-glutamil-transferase elevada confirma que a fosfatase alcalina vem do fígado e não do osso.
  • Quando um cálculo passa para o colédoco de forma aguda, as transaminases podem estar entre 1000 e 2000 UI/L durante pouco tempo; descem depressa e o perfil passa a colestático.
  • O prurido deve-se à retenção de sais biliares e de outros pruritogéneos, não à bilirrubina.

Consequências com peso operatório

  • Coagulopatia: sem bílis no intestino não se absorvem as vitaminas lipossolúveis. Falta a vitamina K, os fatores II, VII, IX e X ficam por carboxilar e o tempo de protrombina alonga-se. Corrige com vitamina K por via parentérica, ao contrário da coagulopatia da insuficiência hepatocelular, e corrige-se antes de qualquer drenagem ou cirurgia.
  • Colangite: a bílis estagnada infeta, e a pressão dentro dos canais lança as bactérias e as endotoxinas no sangue. Por isso a colangite grave é uma sépsis de cavidade fechada, que o antibiótico não resolve sem drenagem.
  • Atrofia e hipertrofia: a obstrução prolongada de um lado do hilo atrofia o lobo obstruído e o outro hipertrofia. É o mesmo fenómeno que a embolização portal provoca de propósito antes de uma hepatectomia major.
  • Cirrose biliar secundária: fibrose progressiva quando a obstrução se mantém meses sem ser resolvida.

Laboratório

  • Confirma o padrão, não a causa. O valor da fosfatase alcalina não distingue colestase intra-hepática de extra-hepática, nem cálculo de tumor.
  • CA 19-9: marcador do adenocarcinoma do pâncreas e das vias biliares. Duas armadilhas:
    • sobe também na colestase e na colangite, benignas, pelo que só se valoriza depois de drenar a via biliar;
    • exige o antigénio de Lewis, que falta em 5 a 10% da população: nestes doentes é indetetável mesmo com tumor volumoso.
  • Serve para estadiar e seguir, não para diagnosticar nem rastrear.

Imagem, por esta ordem

examepapel
Ecografiaprimeiro exame: confirma a dilatação, diz o nível e vê cálculos na vesícula; vê mal o colédoco distal e o pâncreas
Colangiopancreatografia por ressonânciamapa não invasivo da árvore biliar: nível, extensão da estenose, cálculos; referência para a extensão do tumor peri-hilar
TC com protocolo pancreático (multifásica)exame de estadiamento de uma massa: relação com as artérias e as veias, gânglios e metástases
Ecoendoscopiacálculos pequenos do colédoco distal, massas pancreáticas pequenas, punção para histologia
Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE)terapêutica: extração de cálculos, prótese, escovado. Não é exame de diagnóstico
Colangiografia percutânea trans-hepáticadrenagem quando a CPRE falha ou não chega ao obstáculo
  • A CPRE tem pancreatite como complicação mais frequente, em cerca de 3,5 a 5%. Previne-se com 100 mg de diclofenac ou indometacina por via retal antes ou logo depois, em todos os doentes sem contraindicação.
  • Na suspeita de tumor, a TC e a ressonância fazem-se antes de pôr uma prótese: a descompressão e os artefactos da prótese baixam a precisão do estadiamento, sobretudo no hilo.

Suspeita de coledocolitíase

Estratifica-se a probabilidade de cálculo no colédoco antes de fazer CPRE (ASGE 2019, sociedade americana de endoscopia gastrointestinal).

riscocritériosconduta
Alto, acima de 50%cálculo no colédoco na ecografia ou noutra imagem; colangite; bilirrubina total acima de 4 mg/dL com colédoco dilatadoCPRE
Intermédio, 10 a 50%provas hepáticas alteradas; idade acima de 55 anos; colédoco dilatado na ecografiaecoendoscopia ou colangiorressonância primeiro, ou colangiografia intraoperatória
Baixo, abaixo de 10%nenhum dos anteriorescolecistectomia sem estudo da via biliar

Colangite aguda (Tóquio 2018)

grupocritérios
A. Inflamação sistémicafebre ou calafrios; leucócitos ou proteína C reativa elevados
B. Colestasebilirrubina total de 2 mg/dL ou mais; provas hepáticas alteradas
C. Imagemdilatação biliar; causa visível (cálculo, estenose, prótese)
  • Suspeita: A e um de B ou C. Definitiva: A, B e C.
  • A tríade de Charcot é muito específica mas só está presente em cerca de um quarto dos doentes. A pêntade de Reynolds junta hipotensão e alteração da consciência.
graudefinição
III, gravedisfunção de órgão: vasopressores, alteração da consciência, PaO2/FiO2 abaixo de 300, oligúria ou creatinina acima de 2,0 mg/dL, INR acima de 1,5, plaquetas abaixo de 100 000/mm³
II, moderadadois ou mais: leucócitos acima de 12 000 ou abaixo de 4000/mm³; febre de 39 °C ou mais; 75 anos ou mais; bilirrubina de 5 mg/dL ou mais; hipoalbuminemia
I, ligeiranenhum dos anteriores

Tumor: estadiar e decidir a ressecabilidade

  • Cabeça do pâncreas e periampulares: ressecabilidade pela TC, segundo o contacto do tumor com os vasos (critérios da NCCN, rede americana de centros oncológicos).
categoriaartérias (tronco celíaco, mesentérica superior, hepática comum)veias (mesentérica superior, porta)conduta
Ressecávelsem contactosem contacto, ou até 180 graus sem irregularidade do contornocirurgia e depois quimioterapia
Limítrofecontacto até 180 graus com a mesentérica superior ou o tronco celíaco; hepática comum reconstruívelcontacto acima de 180 graus, ou até 180 graus com irregularidade ou oclusão curta, reconstruívelquimioterapia primeiro, reavaliar, cirurgia
Localmente avançadocontacto acima de 180 graus com a mesentérica superior ou o tronco celíacooclusão sem reconstrução possívelquimioterapia
Metastáticoqualquerqualquertratamento sistémico paliativo
  • Colangiocarcinoma peri-hilar: a extensão ao longo dos canais descreve-se pela classificação de Bismuth-Corlette, que antecipa a hepatectomia.
tipoextensão
Icanal hepático comum, abaixo da confluência
IIconfluência, sem os canais de segunda ordem
IIIaconfluência e canal hepático direito
IIIbconfluência e canal hepático esquerdo
IVos dois canais hepáticos, ou multifocal
  • O escovado e a biópsia da estenose têm sensibilidade de apenas 15 a 60%. Com suspeita forte e tumor ressecável, opera-se sem confirmação histológica.
Icterícia obstrutiva: causas e abordagem A · Reconhecer o padrão colestático Laboratório Bilirrubina direta (conjugada) ↑ Fosfatase alcalina ↑ · GGT ↑ Transaminases pouco alteradas Clínica da colestase Colúria (urina escura) · Acolia fecal Prurido · Icterícia Obstáculo mecânico ao fluxo de bílis B · Abordagem: mapear a via biliar Ecografia (1.ª linha) Procurar dilatação das vias biliares Confirma que é obstrutiva Se dilatadas Colangio-RM: mapa da via TC trifásica se há massa Ecoendoscopia se dúvida CPRE Para tratar, não para diagnosticar: extração de cálculos, prótese C · Causas obstrutivas Causa Pista-chave / achado Conduta cirúrgica Coledocolitíase (mais comum) Migração de cálculo vesicular; icterícia flutuante, dor e febre CPRE: esfincterotomia e extração de cálculos Cancro da cabeça do pâncreas Sinal de Courvoisier: vesícula palpável e indolor, com icterícia; marcador CA 19-9 Duodenopancreatectomia cefálica Colangiocarcinoma peri-hilar (Klatskin) Classificação de Bismuth-Corlette (extensão ductal do tumor) Hepatectomia com caudado e resseção da via biliar Estenoses biliares Iatrogénica pós-colecistectomia; inflamatória / síndrome de Mirizzi Dilatação ou hepaticojejunostomia CA 19-9 sobe na colestase e na colangite: valorizar só depois de drenar a via biliar. Tríade de Charcot (febre com calafrios, dor no hipocôndrio direito e icterícia): colangite.
Esquema original InovaQB, síntese da abordagem à icterícia obstrutiva (Courvoisier, Bismuth-Corlette, CPRE).

Coledocolitíase

  • Extraem-se os cálculos do colédoco em quem tolera o procedimento: CPRE com esfincterotomia e extração por balão ou cesto; litotrícia por colangioscopia nos cálculos difíceis.
  • Depois, colecistectomia laparoscópica nas 2 semanas seguintes (ESGE 2019, sociedade europeia de endoscopia gastrointestinal): esperar mais aumenta os novos eventos biliares.
  • Alternativa num só tempo, onde há experiência: colecistectomia com colangiografia intraoperatória e exploração do colédoco, transcística ou por coledocotomia.
  • Cálculo que não sai e precisa de drenagem: prótese plástica temporária.

Colangite aguda

  1. Ressuscitação e antibiótico endovenoso dirigido a Gram-negativos entéricos e anaeróbios, depois das hemoculturas.
  2. Drenagem biliar, de preferência por CPRE; se falhar ou não for possível, drenagem percutânea trans-hepática ou por ecoendoscopia. A cirurgia de descompressão é hoje excecional.
grauquando drenar (Tóquio 2018 e ESGE 2019)
III, graveurgente, logo que o doente estabilize; nas primeiras 12 horas se houver choque sético
II, moderadaprecoce, nas primeiras 48 a 72 horas
I, ligeiraeletiva; drena-se se não responder ao tratamento inicial
  • Depois de drenado o foco, o antibiótico dura 4 a 7 dias.
  • Tratar a causa quando a sépsis resolver: extração dos cálculos e colecistectomia, ou o tratamento do tumor.

Drenagem biliar antes da cirurgia

situaçãoconduta
Obstrução maligna distal (pâncreas, periampular), tumor ressecávelnão se drena por rotina: aumenta as complicações infeciosas e cirúrgicas sem ganho. Drena-se na colangite, na icterícia com sintomas graves (prurido intenso), quando a cirurgia vai atrasar ou antes de quimioterapia neoadjuvante. Nesses casos, prótese metálica autoexpansível de 10 mm por CPRE
Colangiocarcinoma peri-hilar que vai a hepatectomia majora drenagem antes da cirurgia é quase universal, salvo com bilirrubina baixa (ESMO 2023, sociedade europeia de oncologia médica); decide-a a equipa multidisciplinar. Drena-se o fígado que vai ficar, com prótese plástica ou dreno nasobiliar; não se usa prótese metálica, que pode impedir a resseção
  • A razão da diferença: a duodenopancreatectomia não retira fígado, e o fígado colestático aguenta-a; a hepatectomia major num fígado colestático arrisca a insuficiência hepática pós-operatória, sobretudo se o remanescente for pequeno.
  • Em qualquer tumor, a drenagem vem depois da TC e da ressonância de estadiamento.

Cirurgia dos tumores periampulares

  • Duodenopancreatectomia cefálica (operação de Whipple): remove em bloco a cabeça do pâncreas, o duodeno, o jejuno proximal, o colédoco distal, a vesícula, os gânglios regionais e, na forma clássica, o antro gástrico. A variante com preservação do piloro tem resultados oncológicos semelhantes.
  • Reconstrução com três anastomoses: pancreatojejunal, hepaticojejunal e gastrojejunal ou duodenojejunal.
  • Aplica-se ao adenocarcinoma da cabeça do pâncreas, da ampola, do colédoco distal e do duodeno periampular.
  • Faz-se em centros de grande volume: a mortalidade operatória fica abaixo de 5% onde cada cirurgião faz mais de 15 por ano.
  • Adenoma pequeno da ampola, até cerca de 2 cm e sem malignidade na biópsia, pode ser excisado por via endoscópica ou transduodenal; se a peça mostrar carcinoma invasivo, completa-se com duodenopancreatectomia.
  • No cancro do pâncreas segue-se quimioterapia adjuvante durante 6 meses; o limítrofe começa pela quimioterapia.

Cirurgia do colangiocarcinoma peri-hilar

  • O objetivo é a resseção R0, a única via para a cura: resseção da via biliar extra-hepática, hepatectomia, lobo caudado (segmento I), linfadenectomia e hepaticojejunostomia em Y de Roux.
  • O lobo caudado resseca-se por rotina na cirurgia curativa, porque os seus canais drenam diretamente na confluência onde o tumor está.
  • A hepatectomia direita alargada é a abordagem mais comum, porque o canal hepático esquerdo é mais longo antes de se dividir e deixa margem.
  • Embolização portal do lado a ressecar quando o fígado remanescente é pequeno: num fígado normal considera-se suficiente um remanescente de 25 a 30% do volume total, e opera-se cerca de 4 semanas depois, quando hipertrofiou.
  • Tipos I e II sem invasão vascular podem dispensar a hepatectomia. O tipo IV é muitas vezes irressecável.
  • Transplante hepático depois de quimiorradioterapia, em protocolos de centros selecionados, para o peri-hilar irressecável ou sobre colangite esclerosante primária.
  • Depois da resseção de um colangiocarcinoma: capecitabina durante 6 meses.
  • Colangiocarcinoma distal: duodenopancreatectomia, como os outros periampulares.

Paliação

situaçãoconduta
Obstrução maligna distalprótese metálica autoexpansível por CPRE, que dura mais e dá menos colangite do que a plástica. Não se põe prótese metálica não coberta enquanto a causa não estiver confirmada
Obstrução hilarprótese metálica não coberta; CPRE nos tipos I e II, via percutânea ou combinada nos tipos III e IV; drenar pelo menos 50% do volume do fígado
Obstrução duodenal associadaprótese duodenal ou gastrojejunostomia
Pruridodrenagem; colestiramina enquanto se espera
  • Se na laparoscopia se encontram metástases, não se abre só para fazer uma derivação: põe-se prótese por via endoscópica.

Referências

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