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Linfedema

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 12 perguntas neste tema

Em resumo

O linfedema é o edema crónico que resulta de o sistema linfático não conseguir devolver à circulação a água e as proteínas filtradas pelos capilares. A linfa retida no interstício é rica em proteínas, e é isso que o separa dos edemas hemodinâmicos: a proteína prende água, alimenta a inflamação e leva à fibrose e à acumulação de gordura, pelo que o membro passa de mole com godet a duro sem godet.

O primário, por malformação das vias linfáticas, é raro e divide-se pela idade de início: congénito (doença de Milroy), praecox, o mais frequente, na puberdade, e tarda, depois dos 35 anos. O secundário é muito mais comum. Nos países desenvolvidos a causa principal é o tratamento oncológico com linfadenectomia e radioterapia, sobretudo o esvaziamento axilar no cancro da mama; no mundo é a filariose linfática. As celulites de repetição são ao mesmo tempo causa e agravante.

Apresenta-se como edema indolor ou com peso, assimétrico, que no membro inferior começa no pé e não poupa o dorso nem os dedos; o sinal de Stemmer, a impossibilidade de pregar a pele da base do segundo dedo, é característico. O diagnóstico é clínico. Os exames servem para excluir trombose venosa e insuficiência venosa, procurar uma neoplasia obstrutiva e, na dúvida, documentar o defeito de transporte por linfocintigrafia. Um linfedema unilateral novo num adulto sem causa aparente é uma neoplasia até prova em contrário.

Não tem cura. O tratamento é a terapia descongestiva complexa, com uma fase intensiva de drenagem manual e ligaduras multicamada e uma fase de manutenção com compressão à medida, exercício e cuidados da pele; a cirurgia é complemento em casos escolhidos. Os diuréticos estão contraindicados. O que mais pesa na evolução é a infeção: cada celulite destrói mais coletores, e por isso a pele íntegra, o antibiótico precoce e a profilaxia nas recidivas fazem parte do tratamento. Num linfedema de anos, uma lesão violácea nova pode ser um angiossarcoma.

Linfedema primário

Agenesia, hipoplasia, hiperplasia ou obstrução das vias linfáticas, esporádica ou hereditária.

formainícionotas
Congénitonos primeiros 2 anos de vidaforma familiar: doença de Milroy, autossómica dominante, por mutação do gene do recetor 3 do fator de crescimento do endotélio vascular (VEGFR3, gene FLT4)
Praecoxinfância e adolescência, em regra na puberdade94% dos primários; mulheres 10 vezes mais do que homens; forma familiar: doença de Meige; atinge o pé e a perna
Tardadepois dos 35 anosmenos de 10% dos primários
  • Síndromes com linfedema primário: linfedema-distiquíase (gene FOXC2, dupla fila de pestanas), síndrome de Turner, síndrome de Noonan, síndrome de Klippel-Trénaunay, síndrome das unhas amarelas, trissomias 13, 18 e 21.

Linfedema secundário

  • Cirurgia oncológica com linfadenectomia axilar, inguinal ou pélvica, e radioterapia ganglionar, que fibrosa os linfáticos e soma o seu efeito ao da cirurgia.
  • Filariose linfática: Wuchereria bancrofti (cerca de 90% dos casos), Brugia malayi e Brugia timori, transmitidas por mosquitos. Os vermes adultos vivem nos linfáticos e provocam linfangite, dilatação e obstrução.
  • Linfangite bacteriana de repetição, em regra estreptocócica.
  • Infiltração neoplásica dos gânglios (linfoma, cancro da próstata).
  • Outras: trauma extenso, queimaduras, lesão dos linfáticos em cirurgia vascular ou de varizes, podoconiose (partículas de silicatos do solo vulcânico, em quem anda descalço), tuberculose, linfogranuloma venéreo.

Fisiopatologia

  • A água e as proteínas que os capilares filtram voltam à circulação pela linfa, impulsionada pela contração do músculo liso dos coletores e pela bomba muscular, com válvulas a garantir o sentido único, até ao canal torácico.
  • No linfedema o defeito é o transporte (insuficiência de baixo débito): falta, refluxo ou obstrução dos linfáticos. No edema hemodinâmico é o contrário, a filtração aumenta sobre um sistema linfático normal.
  • As proteínas que ficam no interstício aumentam a pressão oncótica tecidual e retêm água, e é por isso que tirar água com diuréticos não resolve.
  • A estase crónica é inflamatória: infiltração por células mononucleadas, fibroblastos e adipócitos, com deposição de colagénio e de gordura na pele e no tecido subcutâneo. O edema deixa de ter godet e o membro fica lenhoso.
  • Sem drenagem, a vigilância imunitária local falha: o membro fica predisposto a celulite e linfangite, e cada episódio destrói mais coletores.

Clínico

Na maioria dos doentes o diagnóstico faz-se pela história e pelo exame. Na história: idade de início, lateralidade, cirurgia ou radioterapia oncológica, celulites, estadia em zona endémica de filariose, história familiar. Medem-se as circunferências ou o volume dos dois membros, para comparar e seguir.

Exames

Servem para esclarecer a causa, excluir o que se confunde com linfedema e, na dúvida, confirmá-lo.

examepara quê
Eco-Doppler venosotrombose venosa ou refluxo venoso que contribua para o edema
Ecografia e TC abdominopélvicasmassa ou adenopatias que obstruam a drenagem
Ressonância do membropadrão em favo de mel no compartimento epifascial; distingue linfedema de lipedema
Linfocintigrafiao exame de imagem linfática mais usado na dúvida: transporte atrasado ou ausente, refluxo dérmico, colaterais cutâneas; separa primário de secundário
Linfangiografiaquase abandonada; reservada a fístulas linfáticas, linfangiectasia e planeamento de microcirurgia
Pesquisa de microfilárias em sangue colhido à noite, ou antigénio circulantefilariose, em quem viveu em zona endémica

Diagnóstico diferencial

linfedemainsuficiência venosa crónicaedema sistémicolipedema
Ladosunilateral ou assimétricouni ou bilateralbilateral e simétricobilateral e simétrico
Péatingido, dedos quadradosedema sobretudo perimaleolaratingidopoupado
Consistênciamole, depois lenhosomais mole, com godetmole, com godetgordura, não é edema
Pele e sinaisStemmer, hiperqueratose, papilomatosedermatite de estase, hiperpigmentação, varizes, lipodermatosclerose, úlcerainsuficiência cardíaca, renal, hepática ou hipoproteinemiaquase só mulheres, da coxa ao tornozelo
  • Trombose venosa profunda: edema unilateral agudo, doloroso; exclui-se por eco-Doppler.
  • Mixedema: edema sem godet do hipotiroidismo.
Linfedema: diagnóstico e tratamento Definição Edema crónico rico em proteínas por drenagem linfática deficiente. A carga proteica distingue-o dos outros edemas e explica a evolução para fibrose. Primário (raro) Congénito ou hereditário. Milroy: congénito, autossómico dominante. Praecox: o mais frequente, começa na puberdade. Tarda: depois dos 35 anos. Secundário (o mais comum) • Linfadenectomia ou radioterapia oncológica (braço após esvaziamento axilar no cancro da mama) • Filariose (Wuchereria bancrofti): causa mais comum no mundo • Celulites de repetição, trauma, queimaduras • Neoplasia obstrutiva Clínica e diagnóstico • Edema progressivo: mole com godet no início, depois duro sem godet (fibrose). • Não poupa o dorso do pé nem os dedos, que ficam quadrados. ! Sinal de Stemmer positivo: não se consegue pregar a pele da base do 2.º dedo do pé, por espessamento cutâneo; característico do linfedema. • Diagnóstico clínico; linfocintigrafia só na dúvida. • Distinguir de: edema venoso (mais mole, com dermatite de estase e varizes) e edema sistémico (bilateral e simétrico: cardíaco, renal, hepático ou hipoproteinémico). Tratamento • Terapia descongestiva complexa (base): drenagem linfática manual, ligaduras multicamada e depois compressão à medida, exercício e cuidados da pele. • Cirurgia (microcirurgia, lipoaspiração) em casos selecionados. ! Diuréticos contraindicados: não corrigem o transporte linfático. Complicações • Celulite, erisipela e linfangite de repetição: cada episódio agrava; tratar cedo. • Angiossarcoma no linfedema crónico (síndrome de Stewart-Treves), raro e grave.

Depois do tratamento do cancro da mama

  • A medida com mais peso é poupar os linfáticos: numa meta-análise, o linfedema do braço surgiu em cerca de 20% após esvaziamento axilar e em cerca de 6% após biópsia do gânglio sentinela. A radioterapia ganglionar depois da cirurgia axilar e a obesidade aumentam o risco.
  • Medir o membro antes da cirurgia e depois em série permite tratar cedo um aumento ainda discreto.
  • As antigas proibições no braço homolateral (punções, colheitas de sangue, medição da pressão arterial, viagens de avião) têm pouco suporte: a estratégia é individualizada, e o exercício, incluindo o de resistência, não é fator de risco.

Prevenção das infeções

  • Pele íntegra e hidratada com emolientes, cuidado com feridas, picadas e queimaduras no membro.
  • Tratar as fissuras e a micose interdigital, que é uma porta de entrada frequente; a British Lymphology Society (sociedade britânica de linfologia) propõe terbinafina tópica diária durante 2 semanas.
  • Controlar o edema com a compressão, que reduz o risco de recidiva da celulite, e perder peso na obesidade.

Filariose

Prevenção de saúde pública: administração maciça de fármacos às populações das zonas endémicas, com esquemas da OMS que combinam albendazol com ivermectina ou com dietilcarbamazina (ou os três), e controlo dos mosquitos vetores.

Não há cura. Os objetivos são reduzir e manter o volume, preservar a função, proteger a pele e evitar as infeções, e quanto mais cedo melhor, antes de a fibrose se instalar.

Terapia descongestiva complexa

faseo que se faz
Intensivadrenagem linfática manual (massagem suave que dilata os linfáticos e aumenta a sua motilidade), seguida em cada sessão de ligaduras compressivas multicamada, até ao volume mínimo
Manutençãomeia ou manga de compressão graduada, exercício sob compressão, cuidados da pele, autodrenagem
  • A compressão é o que mantém o resultado a longo prazo: a pressão necessária varia entre 20 e 60 mmHg, usa-se durante o dia e a peça substitui-se cerca de 6 em 6 meses, quando perde elasticidade.
  • A drenagem manual associada à compressão reduz o edema e o número de infeções por ano.
  • Compressão pneumática intermitente: adjuvante, em casa, cerca de 4 a 6 horas por dia em decúbito, com pressões de 30 a 60 mmHg. Não dispensa a meia, porque mobiliza água e não proteínas.
  • Elevação do membro: adjuvante, não é a base do tratamento.
  • Atividade física e apoio psicológico, pelo impacto na imagem corporal e na função.

Cirurgia

Complementa e não substitui a terapia descongestiva nem a compressão para a vida; os resultados a longo prazo são pouco conhecidos.

tipotécnicalugar
Fisiológica, tenta restaurar a drenagemanastomoses linfovenosas; transferência de gânglios linfáticos vascularizadosdoentes selecionados, em fases com pouca fibrose
Redutoralipoaspiração do excesso fibroadiposo, sobretudo no linfedema pós-mastectomia; excisão de pele e tecido subcutâneomembros volumosos que limitam a mobilidade; compressão sempre depois

Tratamento da causa

Tratar a neoplasia que obstrui; na filariose ativa, antiparasitários. Em quem tem linfedema filariano, a higiene rigorosa do membro trava as crises de adenolinfangite.

Referências

  1. Creager MA, Loscalzo J. Chronic venous disease and lymphedema. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. p. 2119-20.
  2. Chopra A, Liem TK, Moneta GL. Venous and lymphatic disease. In: Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, Dunn DL, Kao LS, Hunter JG, et al., editors. Schwartz's Principles of Surgery. 11th ed. New York: McGraw-Hill; 2019. p. 1001-3.
  3. British Lymphology Society, Lymphoedema Support Network. Guidelines on the management of cellulitis in lymphoedema. BLS/LSN; 2025.
  4. DiSipio T, Rye S, Newman B, Hayes S. Incidence of unilateral arm lymphoedema after breast cancer: a systematic review and meta-analysis. Lancet Oncol. 2013;14(6):500-15.
  5. McLaughlin SA, DeSnyder SM, Klimberg S, Alatriste M, Boccardo F, Smith ML, et al. Considerations for clinicians in the diagnosis, prevention, and treatment of breast cancer-related lymphedema, recommendations from an expert panel: part 2: preventive and therapeutic options. Ann Surg Oncol. 2017;24(10):2827-35.
  6. World Health Organization. Lymphatic filariasis [Internet]. Geneva: WHO; [consultado 2026 set 28]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/lymphatic-filariasis
  7. Sánchez-Medina MT, Acosta A, Vilar J, Fernández-Palacios J. Angiosarcoma in chronic lymphedema (Stewart-Treves syndrome). Actas Dermosifiliogr. 2012;103(6):545-7.

12 perguntas sobre Linfedema

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